Durante milênios, os humanos evitaram atravessar o hostil Deserto de Taklamakan; hoje, a China cria milhares de toneladas de peixes ali

Durante milênios, os humanos evitaram o hostil Deserto de Taklamakan. Hoje, a China cria milhares de toneladas de peixes ali.
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Fabrício Mainenti

Redator

Durante milênios, o Deserto de Taklamakan assombrou os mercadores da Rota da Seda. Este deserto, um dos mais hostis do mundo, com suas dunas movediças e clima implacável, era uma área que precisava ser evitada a todo custo para quem quisesse sobreviver.

Seu próprio nome, derivado do uigur, sugere um lugar do qual não há retorno. No entanto, em 2026, a paisagem mudou radicalmente. Onde antes reinava a aridez absoluta, agora existem lagoas infinitas.

A China alcançou o improvável: transformar este "inferno de areia" em um polo de produção de frutos-do-mar. Não é mais uma miragem, mas uma realidade industrial que está redefinindo nossa compreensão da aquicultura moderna.

A química a serviço do milagre da aquicultura

O desafio de produzir peixes em Xinjiang não se resume à irrigação. O solo lá é saturado de sal e álcali, tornando a agricultura convencional praticamente impossível. Para superar esse obstáculo, engenheiros chineses implantaram sistemas de recirculação de água altamente sofisticados para aquicultura.

A ideia é extrair água de aquíferos salinos e tratá-la quimicamente para replicar a composição exata da água do mar. Ajustando o pH e a salinidade, criam um ambiente sob medida para espécies marinhas como o garoupa e o camarão-da-montanha.

Essa abordagem permite superar limitações geográficas. Em 2024, a produção de Xinjiang atingiu a impressionante marca de 196.500 toneladas. Esse sucesso se baseia na sinergia entre química avançada e gestão térmica, já que a água é mantida a uma temperatura constante, apesar das variações extremas de temperatura no deserto.

Autossuficiência alimentar com implicações ecológicas

Por que persistir na criação de lagostas onde nada cresce? A resposta é estratégica. Para a China, reduzir a dependência de importações de frutos-do-mar e da pesca em alto-mar é uma prioridade nacional. Este projeto colossal visa criar um "mar interior" artificial.

Ao aproveitar o derretimento das geleiras das montanhas circundantes que alimentam a Bacia do Tarim, os produtores têm acesso a um recurso hídrico limitado, porém constante. O objetivo é fornecer peixe fresco às populações locais sem precisar transportá-lo através do continente desde a costa leste.

No entanto, essa façanha técnica levanta questões sobre sua viabilidade a longo prazo. O Deserto de Taklamakan recebe menos de 100 mm de chuva por ano, e a evaporação é enorme. A manutenção dessas bacias exige o bombeamento de reservatórios subterrâneos que se reabastecem muito lentamente.

A indústria observa essa transformação com uma mistura de fascínio e preocupação. Se o modelo se mostrar replicável sem esgotar as águas subterrâneas, poderá marcar o início de uma nova era para a indústria agroalimentar global.

Mas, por enquanto, Xinjiang permanece um laboratório a céu aberto, uma tentativa ousada de domar um dos ambientes mais hostis do planeta. O que está em jogo vai além da simples produção de peixe: trata-se de provar que a tecnologia pode literalmente criar vida do nada.

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