Em 1965, na pitoresca cidade de Arles, no sul da França, o tabelião André-François Raffray pensou ter encontrado uma pechincha para investir. Jeanne Calment, uma viúva de 90 anos sem herdeiros e proprietária de um amplo apartamento no coração do centro histórico da cidade, estava disposta a vender sua casa em troca de uma renda vitalícia, podendo assim morar nela até sua morte.
Com os dados estatísticos em mãos, a compra do imóvel seria uma pechincha para o tabelião, que não hesitou em fechar negócio com a idosa. O que o jovem tabelião não esperava era que se tratava do pior negócio de sua vida: a velha senhora tinha uma genética à prova de balas.
O negócio foi uma pechincha, mas não para ele
O contrato de compra e venda era simples: Raffray pagaria 2,5 mil francos por mês a Calment (equivalente a praticamente o mesmo em reais) até a morte da senhora (que, vale lembrar, já tinha 90 anos), após a qual o imóvel seria integralmente seu.
Este tipo de contrato (conhecido na França como viager) baseia-se na nua propriedade. Este conceito jurídico estabelece que o comprador adquire o direito à propriedade sem direito de uso e fruição até que ocorra um evento incerto, neste caso, o falecimento do vendedor. Em outras palavras, é como uma compra diferida em que um determinado pagamento imediato é estabelecido e o vendedor pode usar a propriedade até sua morte, quando o comprador toma posse do imóvel.
Dadas essas condições, o preço do investimento é consideravelmente inferior ao valor de mercado, já que não pode ser alienado imediatamente. Essa redução no preço inicial impulsionou o número de operações, que vem crescendo a taxas de dois dígitos desde o início da pandemia. Segundo dados publicados pelo Expansión, em 2021, esse tipo de operação cresceu 22,6%, 23,7% em 2022 e 11,3% em 2023.
Para um comprador de 47 anos como Raffray, isso pareceu uma jogada inteligente e um investimento de baixíssimo risco. Em 1965, com a expectativa de vida muito inferior à atual, Raffray presumiu que Calment viveria talvez mais alguns anos e que o valor total a pagar seria inferior ao preço de mercado do apartamento.
Vendedora com grande apego à vida
O que parecia uma operação com poucas incógnitas transformou-se num pesadelo financeiro para Raffray. Jeanne Calment, a nonagenária, não só viveu além de qualquer expectativa razoável da época, como a sua longevidade ultrapassou todos os cálculos.
Oficialmente, Calment faleceu em 1997, aos 122 anos e 164 dias, segundo o The New York Times. Por esse motivo, entrou para o Guinness Book como a pessoa mais velha já registada, o que também representou um azar para Raffray.
Isso porque ele faleceu em 1995, aos 77 anos, 30 anos após a assinatura do contrato com Calment, mas 2 anos antes de ter direito à propriedade. Até aquele momento, o tabelião havia pago honorários que, juntos, excediam em muito o valor do imóvel. Após a morte de Raffray, sua viúva foi obrigada a continuar pagando a Calment, pois a obrigação acordada no contrato de anuidade só se extinguiu com a morte de Calment, e não com a de Raffray. Não havia escapatória.
O resultado foi que a família de Raffray acabou gastando muito mais dinheiro do que teria custado comprar o apartamento pelos meios convencionais, sem nunca sequer morar nele. A própria Calment, ironicamente, chegou a comentar num artigo para o The New York Times que "na vida, às vezes se fazem maus negócios".
Uma vida que vale por duas
Como era de se esperar, tamanha longevidade não passou despercebida pela ciência e pela medicina, que demonstraram grande interesse em investigar os detalhes da vida e dos hábitos de Calment para tentar desvendar seu segredo... e conseguiram.
Em 2018, uma equipe de pesquisa composta pelo matemático russo Nikolay Zak e pelo gerontólogo Valery Novoselov apresentou uma hipótese radical: Jeanne Calment poderia ter morrido em 1934. A Calment que assinou o contrato de propriedade nua com André-François Raffray poderia ser Yvonne Marie Nicolle Calment, filha de Jeanne Calment que, supostamente, teria falecido de pleurisia em 19 de janeiro de 1934.
A hipótese era de que Yvonne teria se passado por sua mãe para evitar o pagamento de impostos sobre herança. Isso teria "prolongado" artificialmente a longevidade de sua mãe, que na verdade vivia duas vidas sob o mesmo nome.
Essa teoria foi apoiada por discrepâncias em documentos antigos, como as diferenças nas características físicas entre registros históricos e a comparação de fotografias de Yvonne e da suposta idosa Calment, que evidencia que não se tratava apenas de uma fraude para sonegar impostos; Raffay também foi vítima de engano.
Apesar das teorias, não há consenso científico sobre essa versão. Pesquisas posteriores, realizadas por uma equipe de demógrafos e historiadores suíços e franceses, publicadas no Journal of Gerontology, descartam a hipótese de fraude e argumentam que, estatisticamente, Calment realmente viveu até os 122 anos.
Imagens | Wikimedia Commons (Emilien Barral), grg.org, Unsplash (Jakub Żerdzicki)
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