A Adobe não nasceu com o Photoshop. Ela começou resolvendo um problema que antigamente era bem complexo: imprimir corretamente

Desenvolvedores começaram criando uma linguagem padrão que funcionava em todas as impressoras

Adobe
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Antes de se tornar uma daquelas empresas que associamos quase automaticamente à criatividade digital, a Adobe tinha uma obsessão muito mais concreta e, à primeira vista, menos “brilhante”: a impressão. Não estamos falando de retocar fotografias, editar vídeos ou abrir arquivos PDF com a naturalidade com que fazemos hoje, mas de resolver uma dificuldade básica — e enorme na prática. Nos primeiros anos da computação pessoal, fazer com que o que aparecia ou era criado em um computador fosse impresso corretamente no papel não era algo garantido. A história da Adobe começa justamente aí: com o PostScript, uma linguagem pensada para descrever como uma página deveria ser impressa.

A dificuldade era que essa cadeia era muito mais frágil do que podemos imaginar hoje. O site do programa Lemelson-MIT lembra que, naquele momento, os computadores pessoais começavam a chegar ao mercado e as impressoras disponíveis eram, em muitos casos, de matriz de pontos, com resultados de baixíssima qualidade. Para trabalhos realmente profissionais, a alternativa eram equipamentos de editoração que podiam ultrapassar US$ 150 mil na época e exigiam processos complexos. Entre esses extremos havia um vazio evidente: faltava uma forma mais flexível, confiável e acessível de levar páginas complexas para o papel.

O papel da Xerox

A próxima peça da história aparece no famoso Xerox PARC, onde a impressão a laser já era uma realidade de laboratório, embora ainda cheia de limitações. Essas primeiras máquinas eram controladas pelo Press, um protocolo que funcionava bem com letras e imagens simples, mas travava com projetos mais exigentes. Um membro daquela equipe chamado John Warnock se deparava repetidamente com a mensagem “Página complexa demais”, e isso não foi uma mera anedota. Sua resposta foi pensar em uma arquitetura capaz de fazer exatamente o oposto: imprimir qualquer página.

Essa ideia não surgiu do nada. Antes de chegar à Xerox, Warnock havia trabalhado na Evans & Sutherland, onde participou de um projeto bastante ambicioso para a Academia Marítima de Nova York: um simulador do porto de Nova York com prédios, docas, boias, clima em mudança e outros navios gerados por computador. Aquele sistema precisava ser construído sem que ainda se soubesse em qual hardware específico ele acabaria rodando, então a equipe optou por criar uma linguagem não vinculada a uma máquina específica. Daí surgiu uma lição decisiva: software independente de dispositivo oferecia muito mais flexibilidade.

Com esse aprendizado, Warnock voltou a encontrar um problema semelhante na Xerox, mas agora aplicado diretamente à impressão. A empresa usava esquemas diferentes dependendo da impressora, a ponto de suas estações Star terem uma carga crescente por precisarem se comunicar com cada modelo de maneira diferente. Warnock e um grupo liderado por Charles Geschke trabalharam então no Interpress, uma linguagem padrão e independente de dispositivo para as impressoras a laser da Xerox. O avanço existia, mas esbarrou em uma decisão empresarial: a Xerox o adotou internamente e não quis abri-lo para o mercado.

Nasce a Adobe

A saída veio em 1982, quando Warnock e Geschke deixaram o Xerox PARC e fundaram a Adobe. O Lemelson-MIT relata que a ideia inicial deles não era exatamente se tornar a empresa de software que acabaria marcando a editoração eletrônica, mas sim montar um serviço de impressão para empresas e consumidores. Esse plano mudou quando seus consultores financeiros os incentivaram a se orientar para o desenvolvimento de software. Foi aí que o PostScript começou a ganhar sua forma decisiva: não como uma solução fechada para uma única máquina, mas como uma linguagem portável que fabricantes poderiam integrar em seus próprios dispositivos.

Uma das peças decisivas para que essa tecnologia saísse do laboratório e chegasse ao mercado apareceu na Apple. A IEEE Spectrum explica que Steve Jobs tinha um problema muito concreto: o Macintosh avançava, mas, sem uma impressora de qualidade, seria difícil entrar no mundo corporativo.

As impressoras “de margarida” (um tipo de impressora bem comum antes das jato de tinta e laser) não serviam para os gráficos do Mac e a Apple não conseguia desenvolver uma solução própria de alta qualidade. A Adobe estava construindo uma resposta. No fim de 1983, a Adobe assinou um acordo com a Apple e, em janeiro de 1985, o PostScript apareceu pela primeira vez na LaserWriter.

Visto hoje, o interessante é que a Adobe não começou pela parte mais reconhecível da sua história atual, mas por uma camada que quase sempre tomamos como garantida. É claro que Illustrator, o Acrobat, o Photoshop e o Premiere fazem parte de uma expansão posterior, mas o ponto de partida foi outro: o PostScript e a promessa de que texto, imagens e gráficos pudessem chegar ao papel com fidelidade. A verdadeira intuição inicial estava aí. 

Imagens | Adobe (1, 2) | Xataka com Nano Banana

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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