Túmulos de 2.600 anos continham algo único: todo o seu conteúdo estava intacto, sem sinais de terem sido saqueados anteriormente

O projeto SGARP descobriu as duas tumbas etruscas mais bem preservadas de todas, que escaparam da pilhagem por saqueadores de túmulos

Túmulos de 2.600 anos continham algo único: todo o seu conteúdo estava intacto, sem sinais de terem sido saqueados anteriormente.
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Fabrício Mainenti

Redator

Na arqueologia, a "descoberta" de tumbas ou túmulos é um acontecimento relativamente comum. Coloca-se "descoberta" entre aspas porque, infelizmente, é típico encontrar sinais de que uma tumba já foi saqueada antes que uma equipe arqueológica possa documentá-la adequadamente.

Consequentemente, encontrar uma tumba não saqueada é um evento muito mais significativo. Esse é o caso de duas tumbas encontradas na mesma localidade que compartilham várias características em comum.

Primeiro, elas estavam situadas a poucos metros uma da outra; segundo, no momento de sua descoberta, ainda continham os restos mortais das pessoas ali sepultadas; e terceiro, ambas foram encontradas graças a um projeto que começou como uma iniciativa de mapeamento, prospecção de superfície (a pé) e uso de radar de penetração no solo, em vez de um projeto originalmente concebido para a arqueologia.

As tumbas etruscas de San Giuliano

Em junho de 2025, uma equipe de arqueólogos — trabalhando como parte do Projeto de Pesquisa Arqueológica de San Giuliano (SGARP), da Universidade Baylor, no Texas — descobriu uma câmara funerária etrusca de 2.600 anos, completamente lacrada. Essa tumba pertencia à cultura que habitava a Península Itálica antes de sua absorção pelo Império Romano.

Ao remover a laje de pedra que bloqueava a entrada, a equipe — liderada pelo arqueólogo Davide Zori — encontrou os restos mortais de quatro indivíduos dispostos sobre leitos esculpidos na rocha.

Eles estavam cercados por mais de cem objetos de acompanhamento funerário em excelente estado de conservação: vasos de cerâmica em estilo geométrico etrusco, armas de ferro, ornamentos de bronze, delicados espirais de prata para cabelo e objetos feitos de pasta de vidro (um tipo antigo de vidro). Entre os achados, destacam-se 74 vasos praticamente intactos.

Túmulo na necrópole onde o SGARP descobriu as duas tumbas intactas. – Imagem: SGARP via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0) Túmulo na necrópole onde o SGARP descobriu as duas tumbas intactas. – Imagem: SGARP via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

No entanto, isso não era tudo o que a tumba continha, embora a verdadeira surpresa só viesse à tona um ano depois. Em 24 de julho de 2026, a mesma equipe anunciou uma segunda descoberta de natureza idêntica: outra câmara lacrada e intacta — desta vez localizada em um túmulo ao sul daquele que já havia sido saqueado e que a equipe escavara em 2024.

Embora mais modesta do que o primeiro achado intacto, ela continha 13 vasos de cerâmica — jarros de armazenamento, taças para vinho e um frasco de perfume — juntamente com os restos esqueléticos de pelo menos dois indivíduos que repousavam sobre um único leito funerário.

Uma ponta de lança de ferro sugere que pelo menos um dos falecidos era do sexo masculino, enquanto um alfinete de ferro — contendo fragmentos têxteis preservados pela própria corrosão do metal — foi encontrado junto a um sepultamento secundário. Isso indica que o segundo indivíduo pode ter sido a companheira do homem falecido.

Túmulos que escaparam de saques por 26 séculos

A Necrópole de San Giuliano abriga mais de 600 túmulos documentados desde o início do projeto em 2016; no entanto, até 2025, todas as câmaras funerárias identificadas tinham sido saqueadas — algumas já no início da ocupação romana, no final do século III a.C.

O fato de dois túmulos do mesmo período terem sobrevivido intactos até os dias de hoje — situados a poucos metros um do outro — faz de Caiolo (a área onde as pesquisas arqueológicas foram realizadas) um estudo de caso único entre as descobertas etruscas.

Uma única câmara intacta já constitui um achado excepcional, pois preserva a disposição original das oferendas funerárias — revelando exatamente o que foi colocado ao lado de cada falecido e em que ordem, detalhes que os saques quase invariavelmente destroem.

Contudo, a existência de dois desses túmulos do mesmo período, situados muito próximos um do outro, oferece algo ainda mais valioso, segundo Jerolyn Morrison, diretora do laboratório do projeto: a capacidade de distinguir entre objetos que faziam parte do cotidiano dos etruscos e aqueles expressamente reservados para rituais funerários — uma distinção que não pode ser feita com o mesmo grau de certeza a partir de um único contexto.

Ainda há questões a serem respondidas sobre esses túmulos em forma de monte. Por exemplo, em relação ao monte 2025, análises preliminares sugeriram que os quatro corpos poderiam representar dois pares de homem e mulher — uma hipótese que aguarda confirmação por meio de antropologia física, análise de isótopos e testes de DNA antigo.

No túmulo 2026, os restos esqueléticos estão mais bem preservados do que os encontrados em escavações anteriores no local; isso abre caminho para análises genéticas que investiguem possíveis laços de parentesco entre os indivíduos, bem como para análises de isótopos destinadas a determinar suas dietas e origens geográficas. Nenhum desses estudos foi concluído até o momento.

No entanto, o que é verdadeiramente notável é a descoberta — quase por "acaso" — desses dois túmulos na área de Caiolo. Tudo isso foi possível graças ao projeto SGARP, que havia escavado anteriormente uma câmara saqueada — o túmulo Fermatrecce d'Oro (Espiral de Cabelo de Ouro) —, revelando duas espirais de cabelo banhadas a ouro que demonstraram como mesmo contextos saqueados podem preservar informações arqueológicas valiosas.

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