A identidade do homem que acaba de pagar US$ 40 milhões (ou cerca de R$ 206 milhões) pelo primeiro Ferrari elétrico de produção não é mais um mistério. Trata-se de Herbert “Herbie” Wertheim, um bilionário americano que, curiosamente, já havia feito algo semelhante no mesmo leilão de Monterey um ano antes: pagou US$ 26 milhões (R$ 135 mil) por um Ferrari Daytona SP3 Tailor Made.
Agora, ele acaba de adquirir o Ferrari Luce Chassis 0 por outros US$ 40 milhões, o que significa que, no tempo que a maioria das pessoas leva para juntar dinheiro para férias, esse colecionador gastou US$ 66 milhões em dois Ferraris únicos sem pestanejar. O curioso é que nenhum dos dois foi um leilão "normal" no mundo do ultraluxo: em ambos os casos, o dinheiro arrecadado destina-se a fins beneficentes.
Não se trata apenas de uma Ferrari: há uma doação por trás disso
O Ferrari Luce Chassi 0, oferecido sem reserva pela RM Sotheby's, tinha uma estimativa de venda de pouco mais de US$ 1,1 milhão, mas acabou sendo arrematado por US$ 40 milhões: um valor que tornou o Luce o carro de produção novo mais caro já vendido em leilão, segundo a Ferrari. Toda a renda será destinada a futuras iniciativas educacionais por meio da "Fundação Ferrari", uma organização reconhecida como instituição de caridade pública.
Mas o que explica esses números? Em um leilão beneficente, a legislação tributária americana permite que o valor pago seja considerado uma doação se exceder o valor justo de mercado do item em questão, desde que esse valor possa ser comprovado. Isso não significa que Wertheim possa simplesmente deduzir 40 milhões de seus impostos: o IRS (ou o equivalente à Receita Federal nos EUA) estabelece limites diferentes dependendo do tipo de contribuição e da situação fiscal do doador.
Em outras palavras, Wertheim não está pagando 40 milhões de dólares por um carro que vale 40 milhões: ele está comprando uma Ferrari que nunca mais será fabricada e, ao mesmo tempo, doando uma quantia extraordinária para uma fundação.
Para alguém com uma fortuna atualmente estimada em US$ 4,6 bilhões, segundo a Forbes, e um longo histórico de filantropia, a transação não representa um esforço significativo e também se encaixa em uma maneira muito particular de entender o dinheiro. E Wertheim não é um bilionário qualquer: ele é optometrista, inventor e empreendedor. Ele fundou a Brain Power Inc., uma empresa de coloração óptica para óculos, e detém mais de 100 patentes e direitos autorais.
Mas grande parte de sua fortuna veio depois: desde 1970, ele investe os lucros de sua empresa no mercado de ações e compra ações de empresas como Apple e Microsoft desde os estágios iniciais. A Forbes também o considera "o maior acionista individual da empresa aeroespacial e eletrônica Heico".
66 milhões por duas Ferraris não passa despercebido
A Ferrari possui um dos sistemas de alocação de modelos mais exclusivos do setor e tradicionalmente dá grande ênfase à fidelidade do cliente. Somente em 2025, 84% das novas Ferraris foram para clientes que já possuíam uma, e 56% para proprietários de mais de uma Ferrari, segundo a Reuters.
No entanto, a própria Ferrari negou em junho passado que a compra da Luce seja um pré-requisito para obter futuras Ferraris especiais. Enrico Galliera, então diretor de vendas e marketing da marca, afirmou que "obrigar os clientes a comprar a versão elétrica para ter acesso a modelos exclusivos seria um erro" e que a alocação ainda depende de fatores como o relacionamento histórico do cliente com a marca, a participação em suas atividades e a fidelidade.
Assim, os US$ 40 milhões de Wertheim não comprovam que ele comprou um "passe VIP" para futuras Ferraris, embora a tradição da marca possa sugerir o contrário. No entanto, demonstram claramente sua forte ligação com Maranello: em dois anos, ele pagou US$ 66 milhões por duas Ferraris exclusivas e, em ambos os casos, destinou uma parte significativa de sua fortuna a doações vinculadas à marca.
Portanto, o enorme cheque conta uma história muito mais interessante do que a de uma Ferrari elétrica vendida a um preço absurdo… Fala de um carro que já nasceu como um artefato histórico e de um mercado onde possuir a Ferrari certa pode ser tão importante quanto o próprio carro.
Imagens | @xtinagrati, @supercarsforsale
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