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Há 2.000 anos, os romanos vendiam perfumes em pombas de vidro que só abriam ao quebrar o pescoço

Roma tinha um cheiro ruim. Mas seus frascos de perfume em forma de pomba eram verdadeiras obras de arte.

Frascos de vidro em formato de pombas
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ana-serra

Carolina Rodrigues

Redatora
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Apesar de todos os esforços, as cidades do Império Romano não eram nada cheirosas. E isso faz sentido: a população convivia com altos níveis de contaminação por esgoto e, para piorar, até usava fezes como remédio.

Por outro lado, os romanos eram imbatíveis no design de frascos para guardar seus cremes e óleos que, assim como os perfumes de luxo de hoje, prometiam muito. Dois frascos do século I d.C., pertencentes ao Império Romano e que hoje fazem parte da coleção do museu MET (Metropolitan Museum of Art), são o exemplo perfeito disso.

Desde aquela época, eles já sabiam que o bom cheiro — vindo dos óleos usados após os banhos nas termas, do incenso dos templos ou dos rituais fúnebres — era um símbolo de status, identidade e poder. Para guardar fragrâncias tão valiosas, eles precisavam de recipientes à altura, que transformassem o ato de se perfumar em um verdadeiro ritual. E o formato escolhido foi o de uma pomba.

Frascos em formato de pomba

Os chamados "unguentários" dos romanos funcionavam de forma parecida com as ampolas de remédio atuais: eram pequenos recipientes de cerâmica ou vidro onde guardavam óleos, produtos comerciais ou substâncias para velórios. O vidro soprado surgiu no século I a.C. e, cerca de 200 anos depois, os romanos já eram mestres na fabricação de vidro. De acordo com o Penn Museum, eles produziam até 100 milhões de recipientes por ano.

Esses modelos curiosos em formato de ave, que cabiam na palma da mão, ficaram tão populares que viraram uma categoria própria na arqueologia, sendo muito comuns em escavações. O modo de usar era direto: era preciso quebrar o pescoço fino de vidro para conseguir pegar o líquido de dentro. Literalmente, "decapitar" a ave de mentira.

Além do visual bonito, o formato tinha uma função prática: protegia o perfume valioso do contato com o oxigênio e ajudava a dosar as gotas na hora de usar.

Por que isso é importante?

Transformar frascos de vidro em silhuetas de aves é um dos primeiros e mais criativos casos de packaging (embalagem) e experiência do usuário da história (imagine o "unboxing" de um influenciador daquela época!). Ter um frasco de vidro trabalhado assim era um grande sinal de riqueza. A arte do período confirma isso, mostrando homens e mulheres perfumados logo após saírem dos banhos públicos.

Além do visual, esses frascos revelam como funcionava a rede de comércio do império: eles guardavam especiarias que vinham da Índia, resinas da Arábia e flores cultivadas localmente.

Quando analisados em laboratório, esses objetos trazem dados químicos valiosos sobre o dia a dia romano. Recentemente, cientistas conseguiram identificar uma versão antiga do perfume de patchouli em uma amostra encontrada em Carmona, na Espanha.

O contexto da pomba

Entre os vários animais esculpidos em vidro, a pomba era a favorita. Evidências arqueológicas mostram que ela foi uma das primeiras aves domesticadas pelo ser humano, que logo aprendeu seus hábitos e a usou para enviar mensagens.

No lado espiritual, a pomba era o animal sagrado de Vênus, a deusa do amor. Era muito comum ver estátuas da deusa com uma pomba na mão ou na cabeça. Guardar perfume em um frasco com o formato do animal sagrado de Vênus era uma escolha cheia de significado.

Nem tudo é certeza

Muitas dessas interpretações sobre os frascos de pomba são hipóteses baseadas no que já conhecemos sobre a Roma Antiga, mas não há 100% de certeza. Esses perfumes podiam ser tanto para o uso no dia a dia quanto exclusivos para rituais de enterros.

Além disso, eles não eram objetos apenas dos bilionários da época: os frascos mais simples eram acessíveis para as classes populares, e o design foi mudando e se refinando com o tempo. No fim das contas, a pomba de vidro podia ter um significado diferente dependendo de quem a comprava e para qual finalidade.

Texto traduzido e adaptado do site Xataka Espanha. 

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