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Futuro deveria ser de painéis solares e carros elétricos: fechamento do Estreito de Ormuz nos fez voltar ao carvão

Fechamento da maior via energética do mundo destrói mito do gás natural liquefeito (GNL) como "combustível de transição" seguro do futuro

Ásia está desesperadamente queimando minerais e reativando energia nuclear diante do colapso do gás natural

Catar alerta que levará até cinco anos para reparar usinas

Imagem | Chris LeBoutillier no Unsplash
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PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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A Terceira Guerra do Golfo trouxe o que décadas de cúpulas climáticas tentaram evitar: o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz apagou fez com que 20% do fornecimento mundial de petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) fosse dizimado. Diante da ameaça iminente de um apagão em larga escala, governos do mundo todo arquivaram seus planos de transição energética.

No entanto, para manter o fornecimento de energia e a economia à tona, a resposta imediata foi recorrer ao passado: queimar carvão incessantemente e reativar a energia nuclear.

A ilusão do "combustível de transição"

A Ásia compra mais de 80% do petróleo bruto e do gás natural que passa pelo Estreito de Ormuz, mas o problema vai muito além de um simples congestionamento. Essa crise destruiu um dos principais pilares da transição energética. Como explica o The New York Times, o Gás Natural Liquefeito (GNL) foi vendido na última década como o "combustível de transição" perfeito: menos poluente que o carvão, mais confiável que as energias renováveis ​​intermitentes e capaz de ser transportado por via marítima para qualquer canto do mundo.

Essa ponte acaba de ser destruída. Os danos estão longe de serem reparados, e estima-se que a infraestrutura atacada levará anos para voltar a operar. Além disso, o Irã transformou o Estreito de Ormuz numa espécie de "boate VIP" marítima, decidindo arbitrariamente quais navios podem passar. Ninguém pode confiar nos navios metaneiros para garantir sua soberania.

O principal problema: viver sem reserva

Mas há um fator técnico que transformou essa crise em uma catástrofe imediata: a falta de armazenamento. Ao contrário do Ocidente, a maioria dos países asiáticos não possui instalações subterrâneas de armazenamento de gás, o que os torna completamente vulneráveis ​​a interrupções no fornecimento.

Enquanto nações como a Coreia do Sul podem suportar até 52 dias e o Japão cerca de três semanas, Taiwan caminha em uma corda bamba extremamente frágil, com um limite legal de segurança de apenas 11 ou 12 dias de reservas. Sem uma "instalação de armazenamento" para guardar o GNL, a Ásia não tem margem de manobra: se o navio não chegar na segunda-feira, o apagão começa na terça. Essa vulnerabilidade estrutural é o que forçou uma rendição incondicional ao carvão.

Sujeira do carvão

Como Jonathan Teubner, analista citado pelo Financial Times, resume perfeitamente: "Nenhum navio cargueiro está passando pelo Estreito de Ormuz." Sendo um recurso barato e abundante que não depende das águas turbulentas do Oriente Médio, o mineral mais poluente fez um retorno triunfal.

Segundo a Fortune, a Coreia do Sul eliminou o limite de 80% de operação para suas usinas termelétricas a carvão, uma decisão que provocou a ira de grupos ambientalistas que acusam o governo de usar a "segurança energética como pretexto". A Tailândia, por sua vez, está reativando usinas que havia desativado no ano passado.

De Seul a Nova Déli: o dilema das grandes potências

O Japão, um dos maiores importadores de gás do mundo, também cedeu às evidências, permitindo que suas usinas termelétricas a carvão, menos eficientes, operem a plena capacidade por um ano. A crise energética é tão profunda que, no Japão, já há quem peça o cancelamento do sistema de comércio de emissões, classificando-o como uma "sentença de morte" para as usinas termelétricas a carvão de que agora precisam para sobreviver.

Na Índia, a situação é crítica. O primeiro-ministro Narendra Modi alertou para um "grande desafio" neste verão. Para evitar apagões em massa, Nova Déli ordenou que gigantes como a Tata Power e a Adani Power operem a plena capacidade, enquanto Bangladesh busca empréstimos bilionários. Sam Chua, analista da Rystad Energy, resume a situação no Financial Times: não estamos testemunhando uma transição, mas sim uma brutal "destruição da demanda por gás".

Não é tão simples: a barreira do dinheiro

Esse ressurgimento do carvão tem um limite. Como apontam especialistas no Japan Times, o setor bancário se recusa categoricamente a financiar a construção de novas usinas termelétricas a carvão por medo de ficar com "ativos obsoletos" diante dos compromissos climáticos globais. Em outras palavras, os países estão explorando ao máximo suas infraestruturas antigas e poluentes, mas não conseguem construir novas. O carvão é como uma assistência para respiração, mas não a a cura.

O átomo como escudo: a grande redenção do urânio

O pânico também quebrou tabus atômicos. Taiwan, cujo governo prometeu uma "pátria livre de armas nucleares" em 2016, anunciou planos para reativar dois reatores desativados. As Filipinas traçaram um caminho acelerado para a energia nuclear até 2032, e o Vietnã acaba de fechar um acordo com a Rússia para construir seus primeiros reatores. O urânio não é mais visto como uma ameaça, mas como a única maneira de garantir o fornecimento de eletricidade contra a chantagem marítima.

O efeito dominó chega à Europa

O que começou como uma solução emergencial na Ásia agora está se espalhando para o Ocidente. A crise forçou a União Europeia a quebrar seus próprios tabus históricos, admitindo que a Europa cometeu um "erro estratégico" ao se afastar da energia nuclear.

Bruxelas já comprometeu-se com 200 milhões de euros para o desenvolvimento de Pequenos Reatores Modulares (SMRs) até 2030. Esta mudança evidencia uma divisão continental: enquanto a França se mantém firme, protegendo o seu investimento de 300 mil milhões de euros em energia nuclear e bloqueando as interligações energéticas com a Península Ibérica, a Europa reconhece que não pode garantir o seu futuro apenas com energia solar e eólica.

Racionamento em tempos de guerra no século XXI

Enquanto as centrais elétricas são reiniciadas, a escassez diária de energia atinge as ruas. As Filipinas declararam um "estado de emergência energética nacional". Na Coreia do Sul, o governo implora às famílias que tomem banhos curtos e a Samsung proibiu os seus funcionários de conduzirem para o trabalho com base no número da matrícula do veículo. Na Tailândia, os funcionários públicos trabalham quatro dias por semana e estão proibidos de usar gravata para poderem ligar o ar condicionado. A escassez é tão grave que as ambulâncias tailandesas recorreram ao Facebook para implorar aos postos de gasolina que reservem gasóleo para salvar vidas.

Danos colaterais

O alcance deste bloqueio vai muito além da conta de eletricidade. Se o conflito se arrastar até junho, a Bloomberg alerta que o preço do petróleo poderá chegar a US$ 200 o barril, um preço projetado para causar "destruição da demanda". Isso consolidaria a inflação global em 6%, aproximando-nos de uma grave recessão e, devido à escassez de fertilizantes, de uma crise alimentar.

O ponto de virada tecnológico, no entanto, é Taiwan. O "escudo de silício" de Taiwan é extremamente frágil: a ilha tem um limite legal de reservas de gás de apenas 12 dias. A TSMC, empresa que fabrica 90% dos chips avançados do mundo — o motor da Inteligência Artificial — consome sozinha 9% da eletricidade da ilha. Se as altas temperaturas do verão causarem apagões devido à escassez de gás, a cadeia de suprimentos tecnológica global entrará em colapso.

Quem sairá mais forte desse caos?

Segundo a Fortune, a China está protegida do choque. Li Shuo, diretor do Asia Society Policy Institute, confirma ao Financial Times que, para a China, esta crise apenas reforça a ideia de que o carvão é "o porto seguro de último recurso".

Graças a uma matriz energética diversificada, reservas estratégicas para 120 dias e uma "frota paralela" que contorna o bloqueio, o gigante asiático observa com serenidade. Sua decisão preventiva de suspender as exportações de combustíveis para proteger seu mercado interno desencadeou um efeito dominó que já paralisou minas na Austrália e cancelou voos no Vietnã.

Armadilha do carbono diante da revolução elétrica

A grande tragédia desta guerra não é apenas econômica, mas climática. Como alerta a especialista Sharon Seah, citada pela Fortune, o verdadeiro perigo é o "aprisionamento do carbono". Uma vez que um Estado assume os imensos custos irrecuperáveis ​​de reativar uma usina termelétrica a carvão, a economia política torna quase impossível desativá-la novamente.

Paradoxalmente, o instinto de sobrevivência está alcançando o que as políticas verdes não conseguiram acelerar. Já existem evidências concretas: concessionárias de veículos elétricos no Sudeste Asiático registraram um aumento acentuado nos pedidos em março, e a Indonésia prometeu que todos os seus veículos serão elétricos.

Queríamos uma transição verde perfeita, mas a geografia nos impôs a brutal realidade da física. Hoje, o mundo está disposto a queimar carvão para sobreviver à semana. Mas, a médio prazo, o medo do apagão pode ser o verdadeiro catalisador que acelera a adoção em massa de energias renováveis ​​— como o Paquistão fez ao triplicar sua capacidade solar — e de veículos elétricos. Não para salvar o planeta, mas para garantir que o próximo conflito em Ormuz não paralise nossas vidas novamente.

Imagem | Chris LeBoutillier no Unsplash

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