Japão deseja há anos redução no número de turistas e teme ver China o realizando

Conflito aberto entre Pequim e Tóquio sobre Taiwan tem uma vítima inesperada: o turismo japonês

Imagem | Kian hao Ng (Unsplash)
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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O Japão está sufocado pelo turismo estrangeiro, e isso é compreensível. A desvalorização do iene, a reativação da demanda após a pausa da pandemia e a enorme popularidade que o país alcançou nas redes sociais impulsionaram o fluxo de visitantes a níveis recordes, reacendendo o debate sobre o turismo excessivo e gerando inquietação em alguns destinos particularmente congestionados, como Kyoto, Nara e Osaka. Para conter esse fluxo, já se fala em aumento de impostos e há até cidades buscando maneiras de reduzir o fluxo de turistas internacionais.

Agora, por razões que pouco ou nada têm a ver com o mercado turístico, o Japão enfrenta um colapso na demanda em seu principal mercado: a China. A questão é se isso representa uma bênção ou uma ameaça para sua economia.

Excesso de turistas

Os dados são indiscutíveis. O Japão se tornou um dos destinos mais populares entre aqueles que planejam suas férias. No ano passado, o país recebeu 42,7 milhões de visitantes estrangeiros, um recorde absoluto que pulveriza o número de 2024, quando ficou pouco abaixo de 37 milhões.

Além da comparação ano a ano, os dados são interessantes por dois motivos. Primeiro, porque nunca antes a Organização de Turismo do Japão (ONTJ) havia contabilizado mais de 40 milhões de visitantes anuais. Segundo, porque esse número está muito aquém dos 31,9 milhões de 2019, o último ano antes da pandemia. Se nada mudar, o governo planeja atingir 60 milhões nesta década, o que se traduzirá em uma poderosa injeção de recursos na economia japonesa. Somente em 2025, os turistas estrangeiros gastaram mais de 60 bilhões de dólares.

Japão

Mais do que apenas dinheiro

O problema é que esse fluxo de turistas não se traduz apenas em aviões lotados, hotéis com a placa de "sem vagas" e hoteleiros e comerciantes satisfeitos com suas vendas. O boom do turismo internacional gerou tensões em alguns destinos particularmente congestionados, deixando episódios quase surreais, como em Kyoto. As autoridades tiveram que proibir o acesso de "turistas paparazzi" a um dos pontos mais emblemáticos da cidade. O motivo: que eles não importunam as gueixas.

Essa não é a única prova das tensões que vêm à tona devido à saturação turística. Em Fujikawaguchiko, as autoridades, incapazes de conter as hordas de viajantes ávidos por "caçar" a selfie perfeita, optaram por instalar uma cerca que bloqueia a vista do Monte Fuji. Em Fujiyoshida, o festival de sakura foi cancelado porque a cidade fica saturada de visitantes que congestionam o trânsito, invadem casas e deixam lixo nos parques. Em Yamanashi, decidiram, anos atrás, começar a cobrar pela subida ao Monte Fuji para preservar a montanha mítica.

Crise de Taiwan

Por caprichos da geopolítica e da diplomacia internacional, o Japão acaba de perceber que esse fluxo recorde de visitantes pode sofrer um duro golpe, tudo por conta de algo que pouco ou nada tem a ver com o mercado turístico: Taiwan. Para entender isso, precisamos voltar a 7 de novembro, quando a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, advertiu, durante um debate parlamentar, que o Japão não hesitaria em mobilizar forças caso a China invadisse Taiwan.

Embora o governo japonês assegure que sua posição permanece a mesma de sempre, a verdade é que as palavras de Takaichi romperam a "ambiguidade estratégica" que o Japão mantinha há décadas, o que não agradou nem um pouco à China. A relação entre Pequim e Tóquio ficou tão tensa que o gigante asiático respondeu com mais do que simples queixas diplomáticas: cancelou shows de artistas japoneses, adiou o lançamento de filmes, reivindicou pandas emprestados de zoológicos japoneses e restringiu suas valiosas exportações de terras raras.

O que isso tem a ver com turismo?

Em sua resposta ao Japão, Pequim também jogou uma de suas grandes cartas na manga econômicas: o turismo. As autoridades chinesas aconselharam seus cidadãos a evitar o Japão e dezenas de rotas aéreas com o país foram canceladas. Em novembro, a BBC noticiou que algumas companhias aéreas chinesas estavam oferecendo reembolso aos seus clientes pelas passagens aéreas para o Japão. Tal medida não teria grande importância se não fosse pelo fato de a China ser um dos principais pilares do setor turístico japonês. O gigante asiático é um dos seus maiores mercados emissores, juntamente com a Coreia do Sul.

De acordo com a Organização Nacional de Turismo do Japão, em 2024 a China foi o segundo maior país de origem dos turistas que visitaram o Japão, representando cerca de 19% da demanda total, ficando atrás apenas da Coreia do Sul (24%). O número é completado pelos 7,3% de Hong Kong e pelo peso significativo de Taiwan no turismo japonês. O fluxo do gigante asiático é crucial, porém, por outro motivo: como lembra o The New York Times, a China não só envia muitos turistas, como também gasta muito no Japão.

Adeus, turistas chineses

Embora o conflito aberto entre a China e o Japão seja recente, seus efeitos não demoraram a ser sentidos na indústria do turismo. O NY Times garante que, em dezembro, o fluxo de viajantes chineses já havia despencado 45% em comparação com o mesmo mês de 2024. E a situação não parece melhorar nos próximos meses: o Japão saiu da lista dos destinos mais desejados pelos chineses para aproveitar o feriado do Ano Novo Lunar. Há quem já alerte que os hotéis japoneses receberão 60% menos turistas chineses.

Por que isso é importante?

Além das porcentagens, essa "quebra" no mercado chinês representa um revés para um setor (o turismo japonês) que, até recentemente, parecia imbatível. Apesar da popularidade do Japão no resto do mundo e dos dados recordes que o país registra, o saldo de gastos com turismo receptivo caiu 2,8% nos últimos três meses de 2025.

Não é uma porcentagem alta, mas representa a primeira queda em mais de quatro anos. Em novembro, a Bloomberg alertou que uma disputa diplomática com a China ameaçava custar ao setor de turismo japonês cerca de US$ 1,2 bilhão em receita. Embora os dados, por si só, não sejam conclusivos, chegam em um momento delicado, no qual o Japão busca maneiras de impulsionar sua economia. Naturalmente, o novo cenário também tem seus beneficiários. A vizinha Coreia do Sul já se consolida como o destino preferido dos chineses que planejam suas férias.

Imagens | Kian hao Ng (Unsplash) e Ishaan Sen (Unsplash)

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