Atualmente, a The International Cat Association (TICA) reconhece 71 raças de gatos domésticos. Mas a descoberta feita agora não acrescenta apenas mais um nome a essa lista: o Leopardus tilcayo é a primeira nova espécie de felino selvagem descrita pela ciência em mais de 100 anos.
Encontrado nas florestas montanhosas das Yungas, na Bolívia, o animal chegou a ser identificado como gato-tigre-do-norte (Leopardus tigrinus), uma espécie de pequeno felino selvagem já conhecida pela ciência. A identificação parecia fazer sentido: ele também era pequeno, tinha o corpo coberto por manchas e vivia em uma região onde o L. tigrinus era encontrado. Só que uma análise mais detalhada revelou uma diferença importante: as características do animal, especialmente seu DNA, não correspondiam aos da espécie conhecida. Os dados genéticos mostraram que ele pertencia a uma linhagem própria, que havia seguido um caminho evolutivo separado há cerca de 1,4 milhão de anos.
A descoberta é especialmente rara porque não se trata apenas de uma reclassificação de um animal já conhecido: é uma espécie de felino que a ciência ainda não havia descrito formalmente.
Um gato pequeno e pintado escondia uma linhagem que a ciência ainda não conhecia
O primeiro contato com o Leopardus tilcayo não indicava que havia uma nova espécie escondida ali. Em 2016, um morador da Bolívia encontrou um filhote perto de uma estrada e levou o animal para casa acreditando que se tratava de um gato doméstico. Mas depois de quase um ano, ficou claro que o comportamento e a aparência do animal não combinavam com os de um gato comum. Por isso, ele acabou sendo levado para o santuário Senda Verde, na região das Yungas, um refúgio de vida selvagem dedicado ao resgate, reabilitação e cuidado de animais silvestres.
No local, a bióloga boliviana Paola Nogales-Ascarrunz teve contato com o animal e observou as principais características: pequeno, com orelhas arredondadas e pelagem marcada por manchas, ele parecia pertencer ao grupo dos gatos-tigre, e essa foi a primeira hipótese dos pesquisadores. Mas, três anos depois, em 2019, a bióloga teve uma surpresa. Ao comparar fotografias do animal com registros de outros gatos-tigre, ela percebeu que havia diferenças visíveis, principalmente no padrão das manchas. A aparência, porém, não era suficiente para determinar se aquilo representava uma espécie diferente.
As diferenças observadas fizeram a pesquisadora buscar uma resposta mais precisa no DNA, já que a análise genética poderia mostrar se aquele animal realmente pertencia à espécie que havia sido identificada anteriormente. Para isso, ela contou com a colaboração do pesquisador brasileiro Eduardo Eizirik, da PUCRS, e de Jonas Lescroart, da Universidade de Antuérpia. Juntos, os pesquisadores analisaram genomas completos de 38 indivíduos do gênero Leopardus. O conjunto incluía animais vivos e oito espécimes preservados em museus, permitindo comparar exemplares de diferentes regiões da América do Sul.
O Leopardus tilcayo foi reconhecido como uma nova espécie de felino selvagem após análises genéticas revelarem que sua linhagem evoluiu de forma independente há 1,4 milhão de anos atrás
Após a análise dos genomas, os pesquisadores conseguiram posicionar o Leopardus tilcayo na árvore evolutiva dos felinos e encontraram uma diferença que não poderia ser explicada apenas pela aparência. A espécie ocupava um ramo próprio, separado das demais linhagens do grupo. Segundo o estudo, a linhagem que deu origem ao tilcayo se separou das outras há aproximadamente 1,4 milhão de anos, indicando que não se tratava apenas de uma população diferente ou de uma variação geográfica de outra espécie, mas de uma linhagem que evoluiu de forma independente.
O nome escolhido pelos pesquisadores foi Leopardus tilcayo, seguindo a maneira como moradores da região chamam o animal. O felino tem aproximadamente 45 a 46 centímetros de corpo e pesa cerca de 1,3 quilo, sendo menor que um gato doméstico. Contudo, ainda há muito a descobrir sobre ele. Os cientistas não sabem exatamente qual é sua distribuição na natureza, quantos indivíduos existem, como se reproduz ou todos os detalhes de sua alimentação e comportamento. Essa falta de informações também torna difícil determinar, neste momento, qual é o grau de ameaça enfrentado pela espécie.
O DNA revelou que os gatos-tigre são, na verdade, cinco espécies diferentes
A descoberta do tilcayo, a nova espécie de felino identificada na Bolívia, também mudou uma parte maior da história evolutiva dos felinos sul-americanos. Durante muito tempo, diferentes populações de gatos-tigre foram agrupadas sob o nome Leopardus tigrinus, mesmo apresentando diferenças de aparência e distribuição. A análise genética revelou que o grupo era muito mais diverso do que se imaginava: o que antes era tratado como uma única espécie, na verdade, reúne cinco espécies distintas. O estudo também identificou uma nova subespécie nas Yungas peruanas, chamada Leopardus tigrinus antisuyo.
Essa mudança na classificação também afeta a forma como os felinos são avaliados para conservação. Quando diferentes populações são tratadas como uma única espécie, a área de distribuição e o tamanho total da população podem parecer maiores do que realmente são. Ao separar essas populações em espécies distintas, fica mais claro que cada uma pode ocupar uma área muito menor e ter uma população reduzida, o que muda a avaliação dos riscos que elas enfrentam.
Por essa razão, os pesquisadores defendem novas avaliações de conservação para esses felinos. O L. tilcayo, por exemplo, ainda não tem sequer uma estimativa confiável de população na natureza. Os resultados do estudo já foram compartilhados com especialistas em conservação, e a expectativa é que cada uma das cinco espécies possa ser avaliada individualmente.
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