Em 1759, piratas compraram uma ilha dos EUA. Desde então, falam uma versão tão inglesa do inglês que ninguém os entende

O Hoi Toider é um testemunho vivo da história de Ocracoke, um reflexo da mistura entre marinheiros, piratas e nativos estadunidenses

Ocracoke
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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As línguas (e seus dialetos) são, possivelmente, uma das grandes maravilhas da nossa civilização. Basta olhar para os latinos do sul da Flórida, que há anos misturam inglês e espanhol, criando uma nova forma de falar. Não muito longe dali, mas alguns séculos antes, piratas chegaram para estabelecer algo inédito nos EUA: o inglês elisabetano. Séculos depois, eles ainda continuam difíceis de entender.

Na remota ilha de Ocracoke, na Carolina do Norte, sobrevive um dialeto único nos EUA: o Hoi Toider, uma mistura de inglês elisabetano, sotaques irlandeses e escoceses do século 18 e a gíria dos piratas que invadiram a ilha há vários séculos. Trata-se da única variante do inglês nos EUA que não é identificada como estadunidense, uma relíquia linguística preservada graças ao isolamento geográfico da ilha e à sua história singular.

Ocracoke, uma ilha de 24,9 km², foi durante séculos um refúgio de piratas, marinheiros ingleses e nativos Woccon, que interagiram e formaram uma comunidade com seu próprio patrimônio cultural e linguístico. Um dos personagens mais emblemáticos foi William Howard, ex-pirata e antigo integrante da tripulação de Barba Negra que, após receber um perdão real, comprou a ilha em 1759 e ajudou a estabelecer uma sociedade que, em isolamento quase total, preservou seu próprio dialeto.

O isolamento da ilha não influenciou apenas a língua, mas também o modo de vida. Até 1938, a localidade não tinha eletricidade e o serviço de balsa só começou em 1957. Isso permitiu que a comunidade permanecesse, em grande parte, à margem das mudanças do mundo exterior, preservando seu modo de vida tradicional, sua cultura e seu dialeto.

Uma língua em risco

O dialeto de Ocracoke, o Hoi Toider, é facilmente reconhecível por sua fonética característica. Por exemplo, o som da letra "I" é pronunciado como "oi", o que transforma "high tide" em "hoi toide", origem do nome do dialeto. Além disso, o vocabulário inclui palavras e expressões herdadas dos primeiros colonos britânicos e irlandeses, como "mommuck" (incomodar), "quamish" (enjoado) e "pizer" (varanda).

Muitos termos vieram da Europa, mas outros surgiram na própria ilha, como "meehonkey", um jogo de esconde-esconde inspirado no som dos gansos durante o voo. Há também "dingbatter", termo usado pelos moradores para se referir aos forasteiros. O problema é que a chegada da televisão, da internet e do turismo acelerou a possível extinção do Hoi Toider. Segundo o linguista Dr. Walt Wolfram, menos da metade dos cerca de 700 habitantes atuais da ilha fala com o sotaque tradicional e, dentro de uma ou duas gerações, ele poderá desaparecer completamente.

Vivendo de costas para o mundo

Além da língua, a comunidade de Ocracoke continua preservando um modo de vida único e autossuficiente. Na ilha não há grandes supermercados nem redes de varejo, por isso os moradores dependem de pequenas lojas locais, mercados artesanais e da pesca. Em vez de cinemas, há grupos de teatro ao ar livre e muitos habitantes ainda trabalham como pescadores, carpinteiros e proprietários de pequenas cervejarias.

O cenário é tão pitoresco que uma das tradições culinárias mais emblemáticas é o fig cake, criado em 1964, quando uma moradora substituiu as tâmaras de um bolo por figos em conserva. Hoje, o bolo faz parte da identidade local e, todo mês de agosto, a ilha celebra o Festival do Figo, com concursos de confeitaria, danças e jogos tradicionais, como o meehonkey.

A questão central: mudar ou não. Naturalmente, Ocracoke continua atraindo novos moradores e turistas, o que deu origem a um debate sobre o futuro de sua identidade cultural. Alguns temem que a chegada de pessoas de fora dilua os costumes locais, enquanto outros veem esse crescimento como uma evolução natural, semelhante à diversidade que os primeiros colonos levaram para a ilha.

Seja como for, o que parece claro é que a comunidade de Ocracoke continua sendo um exemplo de solidariedade e tradição. Por mais estranho que pareça, os moradores ajudam uns aos outros e, embora o dialeto possa desaparecer, o espírito da ilha permanece intacto. "As palavras podem mudar, mas o significado por trás delas continuará sendo o mesmo", afirmam os ilhéus.

Enquanto isso (e enquanto for possível), eles continuarão falando um inglês tão inglês que o resto do país não consegue entendê-los.

Imagem | Nicolaas Baur (Wikimedia), bobistraveling (Flickr)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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