Drone submarino da Ucrânia consegue o impensável: entrar em um dos portos russos mais bem protegidos e atacar um navio

A guerra na Ucrânia funciona como um laboratório brutal para as tecnologias militares do futuro

Submarino russo atacado por drone / Imagem: VANTOR
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Há pouco mais de 24 horas, ocorreu um fato sem precedentes na história dos conflitos bélicos. Até então, havia apenas registro de um vídeo e declarações de alguns envolvidos, mas faltava algo que pudesse certificar de forma concreta que, de fato, um drone submarino havia sido capaz de atacar um porto fortificado.

Agora, não restam dúvidas: os satélites revelaram o que aconteceu.

As primeiras imagens de satélite do ataque ucraniano a um submarino russo em Novorossiysk confirmaram que Kiev conseguiu introduzir um drone submarino não tripulado em um dos portos mais bem protegidos do Mar Negro e fazê-lo detonar a poucos metros de um submarino diesel-elétrico classe Improved Kilo.

Segundo o Serviço de Segurança da Ucrânia, trata-se do primeiro ataque conhecido a um navio russo utilizando um veículo submarino não tripulado e, potencialmente, do primeiro uso bem-sucedido desse tipo de sistema como arma antinavio em um conflito real. Embora seja impossível determinar com precisão a extensão dos danos, o simples fato de ter atingido o alvo já representa um marco operacional e psicológico de grande importância.

O que sabemos

Imagens obtidas por satélites comerciais confirmam que o drone, batizado pela Ucrânia como Sub Sea Baby e até então desconhecido, detonou próximo à popa do submarino enquanto este estava atracado no cais. Parte da infraestrutura portuária foi claramente destruída, em concordância com os vídeos gravados do solo e divulgados pelo SBU, nos quais é possível ver a explosão e os danos no cais.

O submarino, um Project 636.3 Varshavyanka, permanece na mesma posição de antes do ataque, enquanto outras duas unidades próximas foram deslocadas, sugerindo uma reação imediata de segurança. No entanto, não se observam sinais claros de afundamento, nem operações de emergência visíveis, nem vazamentos de combustível, o que indica que, se houve danos, eles podem estar abaixo da linha d’água ou serem de caráter limitado — algo impossível de confirmar apenas com imagens aéreas.

Imagem de satélite após o ataque, com vista geral do submarino dentro do porto e outro submarino atracado externamente. Também é possível ver outros navios atracados nas proximidades. Imagem de satélite após o ataque, com vista geral do submarino dentro do porto e outro submarino atracado externamente. Também é possível ver outros navios atracados nas proximidades.

Como era de se esperar, o Ministério da Defesa russo negou qualquer dano ao submarino ou à tripulação e divulgou um vídeo que supostamente mostra a embarcação intacta, embora sem oferecer uma visão clara da popa e com amplas áreas censuradas. Ainda assim, mesmo esse material deixa entrever destroços de concreto no cais, consistentes com a explosão registrada.

A Frota do Mar Negro também rejeitou qualquer impacto operacional, versão que foi repercutida pelos canais navais russos, embora sem apresentar provas conclusivas. Nesse ponto, a incerteza faz parte do próprio campo de batalha informativo: a Rússia evita reconhecer vulnerabilidades, enquanto a Ucrânia enfatiza a audácia do ataque mais do que seus efeitos físicos.

A brecha nas defesas

Para além dos danos concretos, o elemento realmente disruptivo do ataque é que o drone submarino conseguiu atravessar as barreiras defensivas do porto de Novorossiysk, projetadas para impedir incursões ucranianas. Essas defesas haviam sido implementadas principalmente em resposta aos drones de superfície que Kiev tem usado com notável sucesso no Mar Negro, obrigando a Rússia a adaptar sua proteção portuária.

A mesma área vista antes do ataque, em imagem do dia 11 de dezembro de 2025 A mesma área vista antes do ataque, em imagem do dia 11 de dezembro de 2025

O uso de um UUV (veículo submarino não tripulado) introduz uma nova dimensão ao problema defensivo russo e confirma uma dinâmica chave do conflito: cada contramedida gera uma resposta tecnológica distinta, em uma constante corrida de adaptação.

O Sub Sea Baby não surgiu do nada. Antes desse ataque, a Ucrânia já havia apresentado outros drones submarinos, como o Marichka, concebido para ataques kamikaze contra navios e infraestruturas marítimas, e o Toloka, sobre o qual se conhecem menos detalhes.

Navio3

Não está claro se existe uma relação direta entre esses sistemas, mas o padrão é evidente: Kiev está construindo um portfólio de capacidades submarinas não tripuladas, ciente de que o domínio russo sob a água era um dos poucos campos em que Moscou ainda mantinha clara superioridade.

O submarino como alvo

O ataque também confirma que a Frota do Mar Negro continua sendo um alvo prioritário para a Ucrânia, especialmente seus submarinos da classe Project 636, capazes de lançar mísseis de cruzeiro Kalibr, usados regularmente contra cidades e infraestruturas ucranianas.

A pressão contínua de Kiev já havia obrigado a Rússia a recolher grande parte de sua frota da Crimeia para Novorossiysk, e não é a primeira vez que esses submarinos são atacados: em setembro de 2023, o Rostov-on-Don sofreu danos graves em Sebastopol durante um ataque combinado com mísseis e drones de superfície. No início da invasão em larga escala, a Rússia possuía seis submarinos desse tipo; cada um perdido ou neutralizado tem um peso estratégico considerável.

Uma mensagem para a Rússia. Mesmo que o submarino não tenha sofrido danos críticos, o ataque enviou uma mensagem inequívoca: nenhum porto russo é completamente seguro. Além disso, sinalizou que a guerra naval entrou em uma nova fase, na qual sistemas submarinos não tripulados deixaram de ser experimentos para entrarem em uso operacional real. Outras potências militares, dos EUA à China, observam atentamente um precedente que valida anos de desenvolvimento doutrinário sobre UUVs como plataformas de ataque, reconhecimento e colocação de minas.

Nesse sentido, o episódio de Novorossiysk reforça uma ideia já recorrente no conflito: a guerra na Ucrânia não se trava apenas por territórios, mas funciona como um laboratório brutal para tecnologias militares do futuro, onde cada inovação é testada em condições reais e suas lições são estudadas em todas as capitais militares do planeta.

Imagem | VANTOR

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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