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Casal brasileiro cria aplicativo que ajuda meninas a aprender a lidar com a menstruação e a puberdade

Criado após a filha entrar na puberdade precoce, aplicativo busca explicar menstruação e mudanças no corpo de forma acessível para meninas 

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Natália P. Martins

Redatora

A primeira menstruação costuma chegar acompanhada de dúvidas, inseguranças e, muitas vezes, vergonha. Para muitas meninas, falar sobre o assunto ainda não é fácil. Enquanto isso,para pais e responsáveis, nem sempre é simples abordar as mudanças que começam a acontecer no corpo.  A partir dessa experiência, nasceu um aplicativo brasileiro criado para explicar a puberdade de forma simples, acolhedora e adequada à infância.

Batizado de "Sosô: Ciclo sem Drama", o aplicativo foi desenvolvido pelo casal Rômulo Gomes e Verônica Tarsitano após a filha, Sophia, receber o diagnóstico de puberdade precoce aos oito anos de idade. 

Ao procurar conteúdos que ajudassem a menina a entender o que estava acontecendo, eles perceberam que quase todas as plataformas existentes eram voltadas para adolescentes ou mulheres adultas. A proposta do aplicativo é oferecer informações sobre menstruação, hormônios, autocuidado e mudanças corporais em uma linguagem acessível para crianças entre 8 e 12 anos.

Ideia nasceu quando filha entrou na puberdade aos oito anos

Segundo os criadores, tudo começou quando Sophia, a filha do casal, passou a apresentar sinais precoces da puberdade.

"Quando começamos a buscar ferramentas para ajudar a Sophia, percebemos que os aplicativos tradicionais traziam conteúdos inadequados para a idade das meninas", explica Verônica Tarsitano, mãe e cofundadora da plataforma.

Ela afirma que o objetivo foi criar uma tecnologia pensada desde o início para crianças e pré-adolescentes, ajudando a desmistificar a primeira menstruação e tornando esse momento menos assustador.

Pais Soso Verônica e Rômulo, desenvolvedores so APP. Imagem: Reprodução/Sosô APP

Em vez de utilizar termos médicos complexos, o aplicativo procura explicar o funcionamento do corpo por meio de textos simples e recursos visuais adaptados à faixa etária.

Aplicativo ensina desde hormônios até qual absorvente escolher

Com o aplicativo, meninas encontram artigos que explicam o funcionamento do ciclo menstrual, as alterações hormonais, mudanças emocionais e físicas que acontecem durante a puberdade e orientações práticas para o dia a dia.

Entre os assuntos abordados estão:

  • Como acontece a primeira menstruação;
  • Quais absorventes existem e como utilizá-los;
  • Cólicas e sintomas comuns;
  • Exercícios físicos durante o período menstrual;
  • Higiene íntima;
  • Autocuidado;
  • Mudanças de humor relacionadas ao ciclo.
App Soso Divulgação/ Sosô APP

Também foi criada a ferramenta "Falar com a Sosô", que permite às usuárias enviarem perguntas e receberem respostas diretamente dos próprios fundadores da plataforma em um tom educativo e acolhedor.

Primeira menstruação está acontecendo cada vez mais cedo

A proposta do aplicativo acompanha uma mudança observada por especialistas em saúde infantil. Nos últimos anos, a idade média da menarca (primeira menstruação) diminuiu em diversos países. 

Enquanto gerações anteriores costumavam menstruar por volta dos 15 ou 16 anos, hoje a menarca ocorre, em média, perto dos 10 a 12 anos, podendo acontecer ainda mais cedo em alguns casos.

Essa antecipação faz com que muitas crianças passem por mudanças físicas antes mesmo de estarem emocionalmente preparadas para entendê-las.

Segundo os criadores do aplicativo, é exatamente por isso que cresce a necessidade de materiais educativos voltados especificamente para essa faixa etária.

Dados mostram que a menstruação ainda afeta a rotina escolar

Além das dúvidas sobre o próprio corpo, muitas adolescentes brasileiras enfrentam dificuldades práticas relacionadas ao período menstrual.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE, mostram que cerca de 15% das estudantes brasileiras entre 13 e 17 anos já faltaram à escola por não terem acesso a absorventes. Nas escolas públicas, esse índice sobe para aproximadamente 17%.

A pesquisa também aponta diferenças regionais importantes. Enquanto parte das escolas do Sudeste oferece absorventes às alunas, a disponibilidade ainda é significativamente menor em estados da região Norte.

O levantamento ainda mostra que quase três em cada dez adolescentes afirmam sentir tristeza frequentemente, além de uma queda na satisfação com o próprio corpo durante essa fase da vida.

Tecnologia também ajuda meninas a conhecerem o próprio corpo

Além do conteúdo educativo, o aplicativo funciona como um diário do ciclo menstrual.

As usuárias podem registrar:

  • Datas da menstruação;
  • Intensidade do fluxo;
  • Cólicas;
  • Alterações de humor;
  • Sintomas físicos.
Soso Aplicativo também oferece funcões parentais. Imagem: Divulgação/ Sosô APP

Essas informações ficam organizadas em um calendário simples e podem ajudar tanto a própria menina quanto a família e profissionais de saúde a acompanhar o desenvolvimento do ciclo menstrual.

O aplicativo também cria uma espécie de "cápsula do tempo" quando a primeira menstruação é registrada. A criança pode escrever uma mensagem para si mesma, que poderá ser relida anos depois.

Dados ficam armazenados apenas no celular

Segundo os criadores, o aplicativo foi projetado para o público infantojuvenil e não utiliza publicidade, redes sociais nem espaços de conversa entre desconhecidos. As informações registradas permanecem criptografadas e armazenadas apenas no dispositivo da usuária, sem envio para servidores externos.

Há ainda uma versão voltada para famílias, que permite aos responsáveis acompanhar algumas informações do ciclo e utilizar os registros como apoio para o diálogo em casa.

Meta é alcançar dois milhões de meninas até 2030

Rômulo e Verônica afirmam que o objetivo da plataforma é ajudar cerca de 2 milhões de crianças e pré-adolescentes até 2030, oferecendo um ambiente seguro para que a primeira menstruação deixe de ser um tema cercado por medo ou vergonha.

Mais do que acompanhar datas, a proposta é transformar um momento frequentemente marcado por inseguranças em uma oportunidade de educação em saúde desde a infância.


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