O “clean look” está fazendo sucesso entre as jovens da Geração Z. E também está deixando elas carecas

Uma em cada quatro jovens entre 18 e 25 anos sofre com problemas de queda capilar

Clean look
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Já é hora de enterrar o velho mito de que a calvície é um problema exclusivo de homens mais velhos. Hoje em dia, as salas de espera dos consultórios dermatológicos estão cheias de um perfil muito diferente: mulheres jovens que veem seus cabelos perderem densidade em um ritmo alarmante. Os dados são contundentes: uma em cada quatro mulheres jovens, entre 18 e 25 anos, sofre com problemas de queda de cabelo.

Na busca incessante por um ideal estético impulsionado pelas redes sociais — que exige uma magreza rápida e sem esforço combinada com uma aparência absolutamente impecável no rosto —, as adolescentes estão pagando um preço altíssimo. As modas virais do TikTok, longe de serem inofensivas, estão cobrando um preço direto sobre a saúde capilar.

Estamos diante de uma “tempestade perfeita” que atinge em cheio as mais jovens. Por um lado, a viralização massiva de penteados ultralisos e, por outro, a disseminação de medicamentos como o Ozempic. O impacto visual e psicológico é devastador para elas.

À revista Woman, algumas jovens relatam situações de angústia, confessando que, em épocas de provas ou de grande estresse, caem “bolas gigantes de cabelo” ao se pentear. Isso não é apenas um problema estético: gera profunda ansiedade, insegurança e abala a autoestima de adolescentes que já se encontram sob uma enorme pressão social.

Do ponto de vista médico, o fenômeno está acendendo o sinal de alerta. Embora historicamente os problemas gastrointestinais tenham sido o efeito colateral mais documentado dos medicamentos agonistas do receptor GLP-1 (como o famoso Ozempic), recentemente a alopecia emergiu como um importante sinal de alerta de segurança, acumulando mais de 1.000 relatos espontâneos no sistema de farmacovigilância da FDA (Food and Drug Administration, a agência federal do Departamento de Saúde dos EUA, equivalente à ANVISA no Brasil).

Diante do desespero ao ver o cabelo cair, muitas garotas iniciam uma verdadeira peregrinação médica. Como explica o El Periódico, é comum que as pacientes acabem indo de uma clínica capilar a outra que promete “produtos milagrosos”, gastando grandes quantias de dinheiro em tratamentos ineficazes ou recebendo diagnósticos errados antes de chegar a um dermatologista de verdade.

A raiz do problema

Para entender por que isso acontece, é preciso analisar as duas grandes tendências que convergem nesse fenômeno:

  • O perigo do “clean look” (alopecia por tração): esse penteado da moda, que consiste em usar o cabelo extremamente puxado, com gel e preso para trás, não é apenas uma escolha estética bonita; ele esconde um grave risco mecânico. Em muitas ocasiões, as jovens o utilizam como uma espécie de “xampu a seco” camuflado para prolongar os dias sem lavar o cabelo. Essa tensão contínua literalmente arranca o folículo e restringe a circulação sanguínea, de modo que a falta de oxigenação altera gravemente o ciclo capilar normal.
  • O coquetel de Ozempic e das dietas extremas (eflúvio telógeno): é importante esclarecer que o medicamento em si não é um tóxico direto que mata o cabelo. O que acontece é que a perda drástica de peso e a supressão do apetite geram um estado de emergência ou “sobrevivência” no organismo. Ao reduzir drasticamente o consumo de calorias e proteínas, o corpo se vê obrigado a priorizar os órgãos vitais, abandonando funções que considera “não essenciais”, como o crescimento do cabelo.

O pano de fundo sociológico de tudo isso é profundo e preocupante. A jornalista e escritora Noemí López Trujillo, em uma entrevista ao jornal El País, reflete sobre a atual “cultura do Ozempic” e essa “estética de sovar pão olhando pela janela” que promove o clean look. Estamos diante de uma pressão estética paralisante e contraditória: exige-se das mulheres que sejam magras (inclusive recorrendo à medicalização da perda de peso) e que apresentem sempre um aspecto impecável e rigidamente controlado. Tudo isso responde a uma tentativa de alcançar uma versão aspiracional que vemos nas redes sociais, mas que, na vida real, sai muito caro.

O que dizem os especialistas

A comunidade médica é unânime em seus alertas. Sobre os riscos do penteado da moda, a farmacêutica especializada Helena Rodero, em declarações à revista InStyle, adverte de forma categórica que o dano ocasionado no folículo por esses penteados tão esticados (alopecia por tração) pode se tornar irreversível, diferentemente de outras quedas capilares. Na mesma linha, a Dra. Gloria Garnacho, dermatologista do GEDET, explica à EFEsalud que a tensão crônica acaba inflamando o folículo até destruí-lo, causando uma “alopecia cicatricial”. Além disso, alerta que a prática de não lavar o cabelo por dias para manter o penteado acumula oleosidade e sujeira, o que irrita a microbiota do couro cabeludo.

Quanto à perda de peso rápida, a Dra. Irene Marín, chefe de Dermatologia, afirma no El Periódico que as dietas restritivas associadas a esses medicamentos geram importantes déficits de ferro, zinco e vitamina D, o que desencadeia diretamente a queda difusa do cabelo. Por sua vez, o cirurgião plástico Dr. Jesse E. Smith corrobora que as flutuações hormonais (especialmente as mudanças nos níveis de insulina) e o enorme estresse psicológico que uma perda de peso tão rápida representa interrompem completamente o ciclo natural de crescimento do cabelo. A literatura clínica sustenta que o eflúvio telógeno e a alopecia androgenética são, de fato, os subtipos de queda mais frequentes em pacientes em tratamento com GLP-1.

A queda de cabelo provocada pelo uso de medicamentos GLP-1 e dietas restritivas costuma aparecer entre 3 e 6 meses após a perda de peso, mas, na grande maioria dos casos, costuma se resolver e o cabelo voltar a crescer (em um prazo de 3 a 9 meses) assim que o peso se estabiliza e os níveis de nutrientes no organismo melhoram. Para prevenir problemas maiores, os especialistas recomendam mudanças urgentes no estilo de vida:

  • Na rotina capilar: os especialistas insistem na necessidade de alternar o uso do clean look com dias de cabelo solto, usar elásticos de tecido que não quebrem os fios e, em hipótese alguma, dormir com esse penteado apertado.
  • Na alimentação: é de vital importância aumentar a ingestão de proteínas (que são essenciais para produzir queratina) e suplementar ferro se houver deficiência, uma situação extremamente comum em mulheres jovens devido às perdas durante a menstruação.

Quanto aos tratamentos, o conselho é claro: é preciso desconfiar dos “xampus milagrosos”, já que esses produtos cosméticos agem apenas sobre a aparência da fibra capilar, mas não chegam à raiz, que é onde o problema realmente está. As soluções reais passam por consultar um médico especialista que avalie se a paciente precisa de tratamentos específicos como minoxidil, anti-inflamatórios (corticoides) ou suplementação oral orientada.

O corpo humano é um ecossistema sábio, e o cabelo sempre atua como um delator infalível da nossa saúde interna e dos maus-tratos externos aos quais o submetemos. Talvez tenha chegado o momento de a moda afrouxar, literalmente, o elástico do cabelo e de que, como sociedade, deixemos de normalizar a perda da nossa saúde capilar e física em troca de caber à força em um manequim ou em um padrão de beleza impossível.

Imagem | Instagram

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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