Os mapas falam por si, como os divulgados recentemente pela organização ambiental Movimento Ecologista Peruano (MEP). Na semana passada, o MEP publicou dois mapas de satélite mostrando dezenas de setas coloridas agrupadas no Oceano Pacífico, bem em frente à costa de Mollendo. Cada seta, segundo o MEP, indica a posição de uma embarcação chinesa se aproximando da orla das águas territoriais peruanas em busca de lulas.
A presença dessas embarcações já colocou os pescadores locais em alerta.
O que aconteceu?
O MEP reacendeu um antigo debate no Peru (e em outros países sul-americanos): o impacto da frota pesqueira de bandeira chinesa sobre os recursos marinhos da região. Em 22 de junho, a organização publicou um mapa de satélite nas redes sociais mostrando a concentração de dezenas de embarcações a apenas 220 milhas náuticas da costa de Mollendo, no sul do Peru. Segundo a organização, trata-se de aproximadamente 300 embarcações chinesas pescando fora dos limites das águas nacionais peruanas.
Apenas um dia depois, em 23 de junho, o MEP divulgou outro mapa de satélite mostrando um longo rastro de marcadores de navios pelo Pacífico. "Imagens de satélite de 1º a 19 de junho mostram que a Frota Estrangeira de Lulas completou sua migração norte-sul ao longo da borda da Zona Econômica Exclusiva do Peru", alertou a organização. "Cerca de 400 embarcações pesqueiras chinesas estão concentradas a 220 milhas da costa de Mollendo."
Qual é o problema?
Basicamente, o número e a localização dessa grande frota pesqueira. Se o MEP estiver correto, trata-se de centenas de embarcações asiáticas mobilizadas bem na fronteira da Zona Econômica Exclusiva (ZEE), uma região onde os estados costeiros (neste caso, o Peru) têm jurisdição soberana, o que afeta, entre outras coisas, seus recursos naturais. A ZEE normalmente se estende por 200 milhas náuticas, o que significa que a frota pesqueira chinesa estaria praticamente sua fronteira.
O problema é que, além das demarcações estabelecidas em documentos oficiais ou das distâncias estipuladas em tratados internacionais, a ZEE peruana está inserida em um contexto muito mais amplo: o ecossistema da Corrente de Humboldt, que torna essa região do Pacífico especialmente valiosa para os pescadores.
A própria ONU reconhece que esta é uma das "áreas mais produtivas do mundo", embora também venha alertando há anos sobre a séria ameaça representada tanto pelas mudanças climáticas quanto pela superexploração de seus recursos pesqueiros.
Qual o impacto disso?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Em 2025, o jornal La República publicou uma reportagem que ecoava diversas queixas de pescadores artesanais no Peru: incursões de embarcações chinesas na ZEE, exploração indiscriminada dos recursos e o temor de que os estoques de lula se esgotem.
"Os barcos peruanos saem para o mar, mas não trazem a mesma quantidade de antes. Os navios chineses estão saqueando o mar; nossos barcos são pequenos, tudo é feito à mão. Enquanto isso, eles têm máquinas que transportam o peixe muito mais rápido", explicou Alberto Sánchez, pescador de Paita, ao jornal de Lima.
Pescadores artesanais de Pucusana relataram inclusive avistamentos de grandes embarcações dentro da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) peruana de 200 milhas, apesar da exigência de que as frotas transmitam sua posição via satélite.
Não é novidade
Em 2024, o Movimento Peruano da Pesca (MEP) já havia feito uma denúncia semelhante. Eles chegaram a compartilhar um mapa mostrando a concentração de embarcações asiáticas bem na fronteira da ZEE do Peru. "Onde está localizada a frota pesqueira estrangeira de lulas? Quantos navios a compõem? Que tipo de embarcações são e quantas estão em portos peruanos?", questionou a organização.
Há alguns dias, após a última denúncia, a Marinha do Peru (MGP) realizou um voo de reconhecimento que confirmou que, pelo menos por enquanto, a frota pesqueira estrangeira está operando fora do domínio marítimo peruano, a uma distância de 230 milhas náuticas.
Não afeta apenas o Peru
O debate em torno da presença (e do impacto) de embarcações pesqueiras estrangeiras na costa sul-americana não é novo e vai muito além do Peru, atingindo também países como o Chile. A Infoae cita estudos que estimam que 1.359 embarcações operavam em 2024 dentro das 500 milhas náuticas da costa do Peru. Dessas, 525, quase 40%, eram embarcações chinesas, um número que supera em muito o de outras nacionalidades.
O alerta do MEP surge poucos dias depois de a Parceria para as Pescas Sustentáveis ter emitido uma declaração contundente, enfatizando a importância de não sobre-explorar os recursos da região. Por isso, exige, entre outras coisas, que quaisquer alterações legislativas se baseiem em "fundamentos científicos".
No caso específico do Peru, a organização alerta para o registro de cerca de 2 mil novas embarcações "construídas fora do quadro legal" em um momento em que "a pesca já atingiu 83,27% da cota" estabelecida para este ano.
Contexto importa
Não apenas por causa dos alertas de ambientalistas ou das preocupações da indústria. Há dois anos, a organização The Outlaw Ocean publicou um relatório alertando que a presença da China na pesca vai muito além de suas áreas de pesca ou de embarcações com bandeira asiática.
O país também opera em outras águas da América do Sul, África e Pacífico graças ao "flagging", que basicamente consiste em fazer com que um navio ostente a bandeira de outro país e fique sujeito à sua legislação... e ao direito de acesso às áreas de pesca. Embora a China seja uma potência pesqueira gigante e responda por uma grande parcela da captura mundial, seu objetivo é fortalecer sua capacidade produtiva e atender à alta demanda interna.
Imagens | MEP e Eddie Mark Blair (Unsplash)
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