A música mais longa do mundo dura 639 anos, já está tocando e só vai acabar no ano 2640

A próxima nota só será tocada em 2027, mas o concerto começou em 2001 e continuará por mais seis século

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Natália P. Martins

Redatora

Em um tempo onde as novas músicas raramente passam de alguns minutos, existe uma única composição que desafia completamente a noção de tempo. Ela começou a ser executada em 5 de setembro de 2001, permanece tocando ininterruptamente desde então e só deve chegar ao fim em 4 de setembro de 2640.

A obra é ORGAN²/ASLSP (As Slow As Possible), baseada na composição As Slow As Possible ("Tão lento quanto possível"), criada pelo compositor americano John Cage em 1987. Executada em um órgão de tubos instalado na igreja de St. Burchardi, na cidade alemã de Halberstadt, é considerada a peça musical não computadorizada mais longa do mundo.

Música que muda de nota apenas uma vez por ano — ou até menos

Ao contrário de uma apresentação convencional, a peça não é formada por uma sequência contínua de melodias. O órgão permanece sustentando exatamente o mesmo acorde durante meses — e, em alguns casos, por mais de um ano.

O projeto acaba de atingir mais um marco: em 5 de agosto de 2026, o órgão executou uma rara mudança de acorde.

Na mudança, o instrumento passou pela 17ª troca de tom. Um acorde formado por sete notas foi alterado par outro com oito notas, representando cerca de 4% da execução total prevista para os 639 anos do projeto.

A próxima alteração já tem data marcada: 5 de outubro de 2027. Para muitos visitantes, assistir a essa troca de acorde é um evento único na vida.

Como um órgão consegue tocar uma nota durante meses?

Diferentemente de um piano, onde o som desaparece logo após a tecla ser pressionada, um órgão de tubos produz som continuamente enquanto recebe fluxo de ar.

O ar é captado do ambiente, passa pelos foles — hoje movidos eletricamente — e percorre tubos metálicos afinados para notas específicas.

Enquanto o fluxo de ar permanece constante, o som também permanece. Isso permite que um mesmo acorde seja sustentado durante semanas, meses ou até anos, algo impossível em instrumentos de corda ou de percussão.

Igreja medieval virou palco de uma apresentação que atravessa séculos

A execução acontece na antiga igreja do convento de St. Burchardi, fundada no século XIII.   O órgão utilizado para a obra foi construído especialmente para esse projeto e ocupa o centro da igreja. Sua estrutura é relativamente simples: torres de madeira, tubos metálicos e um sistema pensado exclusivamente para manter notas contínuas durante décadas.

Enquanto não chega o momento de uma nova mudança de acorde, o espaço permanece preenchido por um único som que ecoa constantemente pelas paredes de pedra do edifício.

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Manutenção do arranjo custa milhares de euros por ano

Segundo os organizadores, manter o órgão funcionando custa cerca de 60 mil euros por ano, além de uma grande rede de trabalho voluntário responsável pela manutenção do instrumento e da igreja.

Ao longo de mais de seis séculos previstos para a execução, ninguém sabe quais desafios poderão surgir, desde problemas técnicos até guerras, crises econômicas ou desastres naturais.

Por isso, embora a composição esteja programada para terminar apenas em 2640, os próprios responsáveis reconhecem que sua conclusão dependerá do compromisso das futuras gerações em manter viva uma das experiências musicais mais extraordinárias já realizadas.


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