Estamos há anos esperando um 'Ozempic' que não precise de refrigeração nem injeções. E a Europa está prestes a autorizá-lo

EMA abre caminho para o primeiro GLP-1 que realmente funciona em forma de comprimido. É o próximo passo rumo à ampla disponibilidade dessa revolução farmacêutica

Ozempic
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Natália P. Martins

Redatora
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Natália P. Martins

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A EMA abre caminho para o primeiro GLP-1 que realmente funciona em comprimido, marcando o próximo passo para a universalização dessa revolução farmacológica.

É o equivalente farmacológico a montar um quebra-cabeça: você acorda, toma um comprimido com meio copo de água (nunca mais de 120 ml) e se senta para esperar. Meia hora inteira em jejum absoluto — nada de café da manhã, café puro ou qualquer outro remédio. E todo esse sacrifício para que apenas 1% a 2% da semaglutida oral ingerida chegue, de fato, à corrente sanguínea.

Durante anos, a melhor opção em comprimido que tínhamos para perda de peso era o Rybelsus. Só que tomá-lo exigia uma disciplina quase monástica. Na prática, a biodisponibilidade acabava sendo extremamente limitada, e pouca gente conseguia se adaptar bem à rotina.

É por isso que a recomendação da Agência Europeia de Medicamentos para autorizar o Foundayo (orforglipron) vai muito além de ser apenas mais um GLP-1 na praça. Trata-se de uma decisão com potencial para mudar quase tudo.

O que aconteceu exatamente?

O Comitê de Medicamentos para Uso Humano da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) deu seu aval para dois usos do orforglipron: o controle de peso e o tratamento do diabetes tipo 2 mal controlado. Embora o comitê técnico não aprove medicamentos diretamente — papel que cabe à Comissão Europeia —, na prática esse parecer é a etapa decisiva para a liberação comercial.

Por que tanto alvoroço por mais um comprimido?

Vale lembrar que o Rybelsus está disponível na Europa desde 2020 e a versão em pílula do Wegovy recebeu aprovação em julho de 2026. O grande obstáculo, até agora, residia na própria estrutura dessas substâncias: elas eram peptídeos.

Em termos simples, tratam-se de cadeias de aminoácidos projetadas para imitar o hormônio GLP-1, mas extremamente vulneráveis à acidez gástrica do estômago. Daí a necessidade histórica da via injetável. A indústria até tentou driblar o problema utilizando promotores de absorção (como o SNAC), mas a absorção continua sendo mínima.

A virada de chave do orforglipron

O orforglipron joga em outra liga: é uma molécula sintética não peptídica que ativa o mesmo receptor por outra via química e é absorvido como qualquer outro medicamento convencional.

O ponto central é que moléculas pequenas como essa são produzidas inteiramente por síntese química: não exigem refrigeração contínua e ganham escala industrial com muito mais facilidade. Não se trata apenas de uma troca de formato, mas de uma transformação estrutural na cadeia produtiva. Não por acaso a Lilly, a farmacêutica responsável por desenvolvê-lo, acumulava no final de 2025 nada menos que 1.500 milhões de dólares em estoque antes mesmo de qualquer agência reguladora aprovar a fórmula.

E a eficácia nos testes clínicos?

Pelo que as evidências indicam até o momento, sim, ele funciona. Nos ensaios clínicos de controle de peso avaliados pela EMA, a perda corporal após 72 semanas variou entre 5% e 11% dependendo da dosagem utilizada, contra 2% a 2,5% observados no grupo placebo. É verdade que são índices um pouco inferiores aos obtidos com os medicamentos injetáveis, mas a facilidade de uso e de transporte torna a proposta extremamente competitiva.

O efeito colateral esperado recai no sistema digestivo — com náuseas, vômitos e episódios de diarreia. Nos ensaios, entre 3% e 6% dos voluntários abandonaram o tratamento em decorrência desses desconfortos, a depender da dose administrada.

O próximo salto dos tratamentos metabólicos

Se tomarmos como parâmetro o mercado do Reino Unido, onde já é comercializado desde agosto, a expectativa é que os preços devam girar em torno de 100 a 120 libras por mês. Para um remédio com dados preliminares apontando para seus possíveis efeitos benéficos para o coração, o cenário soa bastante promissor.

Especialmente para o laboratório fabricante. A ciência finalmente encontrou uma forma de fazer o GLP-1 vencer a barreira do estômago — resta saber agora se o tratamento conseguirá caber no bolso dos pacientes.

Imagem | Elaboração própria

Texto traduzido e adaptado do portal parceiro Xataka Espanha.

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