Uma equipe de cientistas acredita ter descoberto a causa da morte de Simonetta Vespucci, a musa de Botticelli

O segredo estava em olhar para o quadro com os olhos da ciência

Uma equipe de cientistas acredita ter descoberto a causa da morte de Simonetta Vespucci, a musa de Botticelli.
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
fabricio-mainenti

Fabrício Mainenti

Redator

Um quadro pode despertar todo tipo de sentimentos, mas também é capaz de solucionar um mistério com centenas de anos de existência. É exatamente isso que parece estar acontecendo com “O Nascimento de Vênus”. Além de ser uma das obras mais emblemáticas do Quattrocento italiano, esta pintura de Sandro Botticelli parece conter, também, uma possível pista sobre a causa da morte da enigmática Simonetta Vespucci.

Casada aos 16 anos com o nobre Marco Vespucci, Simonetta logo ganhou grande fama na elite florentina, tanto por sua beleza quanto por seu intelecto. Um dos muitos homens que se encantaram por ela foi o próprio Botticelli, que não tardou a transformá-la em sua musa.

Não existe um número exato de quadros nos quais seu rosto aparece, já que ela não surge apenas em retratos; seus traços serviram também de inspiração para ninfas e outras personagens femininas na obra do pintor. No entanto, cinco pinturas específicas levaram uma equipe de cientistas italianos a concluir que, possivelmente, a jovem sofria de um tumor neuroendócrino na hipófise.

Uma morte misteriosa

Simonetta faleceu em 1476, aos 23 anos, após um baile. Segundo cartas enviadas por seu sogro, Piero Vespucci, a Lorenzo de' Medici, ela desmaiou enquanto dançava e precisou ficar acamada por vários dias, período durante o qual sofreu com fortes dores de cabeça, tonturas, alucinações e vômitos.

Infelizmente, ela faleceu em decorrência dessa crise. Por muito tempo, acreditou-se que a causa da morte tivesse sido tuberculose. Contudo, algumas peças não se encaixavam. Agora, temos a possível resposta para o enigma.

Um tumor evidente

Em estudos anteriores, observou-se uma evolução nos traços faciais de Simonetta, o que poderia estar relacionado a um tumor neuroendócrino na hipófise. Destacam-se, sobretudo, algumas mudanças sutis na mandíbula, na sobrancelha e nos tecidos moles do rosto. Além disso, uma nova pesquisa concentrou-se nos olhos da jovem, já que estes também apresentaram uma evolução nas pinturas de Botticelli.

Tumores como o que se acredita que Simonetta tinha podem pressionar os nervos cranianos, provocando um leve desalinhamento dos olhos. Nas pinturas, percebe-se que a musa do pintor foi desenvolvendo, aos poucos, algo semelhante a um estrabismo, o que corrobora a tese já existente.

Mais uma evidência

Além de tudo o que se observa nos traços da "Bela Simonetta" — como a musa também era conhecida —, existe outra prova oculta em um quadro específico: "Retrato alegórico de uma mulher". Nele, vê-se uma mulher com as feições da esposa de Vespucci pressionando o próprio peito, o que provoca a liberação de leite. Sabe-se que a jovem morreu sem deixar descendentes.

Se ela não teve filhos, não deveria ser capaz de amamentar. No entanto, em alguns casos, esse tipo de tumor vem acompanhado de um excesso de prolactina, o hormônio responsável pela produção de leite após a gravidez. Trata-se de um subtipo de tumor conhecido como prolactinoma.

Retrato Alegórico de uma Mulher Retrato Alegórico de uma Mulher

O que a dança tem a ver com isso?

Cientistas que sugerem que Simonetta tinha um tumor neuroendócrino na hipófise acreditam que o esforço da dança lhe causou uma apoplexia hipofisária. Isso é algo que pode ocorrer com esses tumores quando não são tratados, já que seus vasos sanguíneos costumam ser mais frágeis do que os de uma hipófise saudável e se rompem mais facilmente com uma alteração na pressão decorrente de um esforço.

Tudo isso se encaixaria nos sintomas apresentados pela jovem, segundo as cartas de seu sogro.

Há uma segunda teoria, ainda mais terrível. De acordo com alguns relatos da época, na noite do baile, Simonetta pode ter sido estuprada por Afonso II de Aragão, duque da Calábria. Isso, logicamente, teria lhe causado um estado de tensão que também poderia ter desencadeado a apoplexia.

Portanto, não se sabe exatamente que tipo de esforço ou estresse levou seus vasos sanguíneos ao limite, mas é provável que houvesse um tumor por trás de tudo. É impossível chegar a um diagnóstico preciso 550 anos depois, mas parece que a maior parte das evidências se encaixa.

Imagem de capa | Sandro Botticelli

Texto traduzido e adaptado do portal parceiro Xataka Espanha

Inicio