Criador de Dragon Age e Mass Effect, lendário estúdio BioWare vai fechar as portas

Empresa ajudou a definir os RPGs ocidentais e a inclusão nos videogames, mas não tem lugar na nova EA, agora propriedade da Arábia Saudita

BioWare fecha as portas
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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A Electronic Arts está construindo seu próximo capítulo e, por isso, fechou a BioWare. O estúdio canadense, fundado há 30 anos e que ajudou a definir os RPGs ocidentais com franquias como Baldur's Gate, Star Wars: Knights of the Old Republic, Dragon Age e Mass Effect, encerrou suas atividades como parte de uma profunda reestruturação na EA, sua empresa controladora, que cortou cerca de 400 postos de trabalho.

A decisão foi tomada dois meses e meio depois de a empresa passar para as mãos de um consórcio liderado pelo fundo soberano saudita. E, mesmo sendo uma notícia esperada, não deixa de ser triste.

Se você cresceu jogando algum dos títulos da BioWare, a notícia caiu como uma bomba na tarde desta quarta-feira, 21 de outubro. Cam Weber, presidente e diretor de estúdios da EA, e David Tinson, presidente e diretor de operações, enviaram uma carta aos funcionários anunciando o fechamento do último estúdio remanescente da BioWare, localizado em Edmonton.

Eles reconhecem que se trata de um estúdio lendário e que a decisão não foi tomada de ânimo leve, mas explicam que um pequeno grupo de pessoas — cerca de 50 desenvolvedores, segundo informações divulgadas — ainda trabalhava nas fases iniciais de um novo Mass Effect e que a EA decidiu não dar continuidade ao projeto. Segundo a Bloomberg, isso faz parte de um plano de demissão de 400 funcionários, cerca de 3% do quadro de pessoal da EA, embora a empresa não tenha confirmado essa informação.

Bioware O tweet de despedida da BioWare

Essa reestruturação, semelhante ao “Reset” do Xbox, faz parte de um plano para concentrar equipes e orçamentos em três prioridades:

  • Reforçar suas principais franquias.
  • Alcançar mais mercados e plataformas.
  • Criar novas formas de relacionamento com os fãs de esportes.

O que será priorizado na EA

Você pode imaginar quais franquias eles têm em mente: as de jogos como serviço. A EA classificou Battlefield 6 como um “grande sucesso” — o que não impediu que o estúdio sofresse demissões em março deste ano — e a DICE, desenvolvedora responsável pela franquia, continuará seguindo esse caminho. Além disso, o estúdio sueco é responsável pela tecnologia da empresa, a engine Frostbite, utilizada no desenvolvimento de jogos como Battlefield, Battlefront e EA Sports FC (anteriormente conhecido como FIFA).

O EA Sports FC é o principal pilar da empresa e, de fato, a EA demonstra um compromisso enorme com os jogos esportivos em seu novo plano. Isso está de acordo com os interesses dos novos proprietários sauditas, que não veem conflitos ideológicos nos títulos esportivos. Aliás, há informações de que eles estão preparando um jogo de futebol americano em mundo aberto, nos moldes do EA Sports FC 27, além do retorno da franquia de boxe Fight Night.

Por outro lado, há projetos de Star Wars e Iron Man em situação incerta, licenças negociadas com a Disney que estão sendo desenvolvidas pela Respawn e pela Motive, respectivamente. Este último estúdio também é responsável por Apex Legends, um jogo com o qual a EA se comprometeu para os próximos anos.

Já dava para prever

Voltando à BioWare, o fechamento não era inesperado pelo setor. Embora tenha sido uma referência durante duas décadas, o último grande sucesso do estúdio foi Dragon Age: Inquisition, de 2014, que vendeu mais de 12 milhões de cópias e ganhou prêmios de melhor jogo do ano.

Desde então, as coisas têm sido bastante sombrias, com um Mass Effect: Andromeda que chegou ao mercado em péssimo estado e cujos números de vendas nunca foram divulgados; um Anthem que foi um fracasso monumental em vendas e um Dragon Age: The Veilguard que foi bem recebido pela crítica, mas teve 50% menos jogadores do que o esperado.

Nos bastidores, é preciso mencionar os problemas com a engine Frostbite, desenvolvida para jogos de tiro, e não para os títulos produzidos pela BioWare, que fizeram o estúdio desperdiçar muitos recursos. Também houve situações caóticas na direção dos jogos e do próprio estúdio, além de uma promessa lançada em 2020 na forma de um novo Mass Effect, sobre o qual, seis anos depois, só sabemos que ainda está nos estágios iniciais de produção.

A compra da EA e a dívida

E chegamos à questão dos sauditas. Em setembro de 2025, a EA anunciou que seria adquirida por um consórcio formado pelo fundo soberano saudita PIF, pela gestora de investimentos Silver Lake e pela Affinity Partners, uma empresa de investimentos pertencente ao genro de Donald Trump. No valor de 55 bilhões de dólares, a aquisição foi concluída em 4 de agosto de 2026, quando a EA deixou de ser negociada na bolsa de valores.

Esse tipo de aquisição gigantesca é incomum. A operação foi financiada com cerca de 36 bilhões de dólares em capital dos investidores e 20 bilhões de dólares em dívida assumida pelo JPMorgan, dos quais se previa desembolsar 18 bilhões no curto prazo. Isso deixou a EA com uma dívida de 20 bilhões de dólares.

E, se a pergunta é como a empresa adquirida pode assumir uma dívida que precisa pagar, a explicação é que, como mostra a Quartz, nesse tipo de aquisição, a dívida passa a integrar o balanço patrimonial da empresa comprada. Ou seja, a Electronic Arts precisa devolver uma quantia enorme de dinheiro e não consegue levantar esse valor apenas vendendo jogos. Por isso, precisa cortar custos e se desfazer de parte de sua estrutura. Nesse caso, o peso a ser eliminado são os estúdios e seus funcionários.

A questão dos direitos humanos

Com o fechamento da BioWare, não apenas perdemos um estúdio lendário, enquanto seus funcionários ficam sem emprego em um dos piores momentos da indústria, como também surge a questão do que acontecerá com as propriedades intelectuais que pertenciam ao estúdio. É difícil imaginar que a atual Electronic Arts continue explorando franquias que, em outras mãos, poderiam render muitas alegrias aos fãs. E ainda há a série da Amazon de Mass Effect, que continua em produção.

O problema com as franquias da BioWare é que o estúdio historicamente se comprometeu com a inclusão e com conteúdos LGBTQ+, algo que, por algum motivo, não combina com os ideais dos novos proprietários. Na Arábia Saudita, as relações entre pessoas do mesmo sexo são ilegais, assim como o feminismo e o ateísmo. De fato, quando a aquisição foi anunciada, alguns funcionários da EA expressaram desconforto com a situação.

Em suma, mais um dia triste para os videogames, com o fechamento de uma empresa que nasceu para pesquisar simulações médicas e acabou se tornando uma das desenvolvedoras mais respeitadas e influentes da indústria. Agora, só nos resta acompanhar o que acontecerá com a Maxis, que está desenvolvendo um novo jogo da franquia The Sims, conhecida por seu compromisso com a inclusão desde o início e por ter um dos públicos mais diversos.

Texto traduzido e adaptado do portal parceiro Xataka Espanha.


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