O ano de 536 d.C. marcou o início de um dos períodos mais extremos que o mudo já viveu. De acordo com um estudo liderado pelo historiador Michael McCormick, publicado na revista Science, uma densa névoa cobriu grandes regiões da Europa, do Oriente Médio e da Ásia por aproximadamente 18 meses. Esse fenômeno reduziu significativamente a luz solar, derrubou as temperaturas em até 2,5 °C e desencadeou uma série de eventos que resultaram em fome generalizada, colapso agrícola e uma das décadas mais frias dos últimos 2.300 anos.
Durante esse período, registros indicam neve no verão em partes da China e colheitas fracassadas em diferentes regiões do hemisfério norte. A combinação de frio extremo, escassez de alimentos e instabilidade social transformou o ano de 536 no ponto de partida de uma crise prolongada que se estenderia até 640.
Análise de gelo revela origem do fenômeno e aponta para vulcão no Atlântico Norte
Eventos extremos do passado costumam despertar fascínio, seja pelo impacto que causaram ou pela possibilidade de algo semelhante acontecer novamente. O interesse pelo ano histórico de 536 também não escapa dessa, especialmente porque, durante muitos anos, ninguém soube explicar a causa desse período atípico.
A origem dessa escuridão prolongada só começou a ser esclarecida recentemente, a partir da análise de núcleos de gelo extraídos dos Alpes, na Suíça. Em um trabalho conduzido também pelo climatologista Paul Mayewski, cientistas utilizaram técnicas de alta precisão para identificar partículas microscópicas preservadas no gelo ao longo de mais de mais de 2 mil anos.
As amostras revelaram a presença de vidro vulcânico e compostos químicos compatíveis com grandes erupções. Com isso, os pesquisadores acreditam que a principal hipótese para a origem do nevoeiro foi uma erupção ocorrida na Islândia, que lançou cinzas na atmosfera e formou uma espécie de véu que refletiu a luz solar, resfriando o planeta. Além disso, outras evidências indicam que não houve apenas uma erupção vulcânica de grande escala, mas outras em 540 e 547 que reforçaram o resfriamento do mundo, prolongando seus efeitos por anos.
O dia em que o mundo escureceu: fenômeno misterioso que mergulhou o mundo na escuridão intriga cientistas até hoje
Se você achava que a mudança drástica no clima fosse o único problema, está enganado. O mundo vivia um período caótico, com queda nas temperaturas, colheitas comprometidas e um período de instabilidade generalizada, mas o pior ainda estava por vir. Como se não bastasse a escuridão e o frio anormal, surgiu um novo e devastador perigo. Em 541, a Peste Bubônica atingiu o porto de Pelúsio, no Egito, dando origem ao que ficou conhecido como Peste de Justiniano. A doença se espalhou rapidamente e teria dizimado entre um terço e metade da população do Império Romano do Oriente.
A combinação de desastres naturais e crise sanitária provocou uma longa estagnação econômica, que só começou a dar sinais de recuperação por volta de 640 d.C. Evidências dessa recuperação foram encontradas no gelo, onde análises das camadas preservadas ao longo dos séculos mostram que o aumento de partículas de chumbo indica a retomada da mineração de prata e, consequentemente, da atividade econômica.
Esses registros são fundamentais para que os historiadores possam compreender o passado. Ao combinar dados ambientais com acontecimentos históricos, é possível entender como eventos climáticos extremos contribuíram para transformações significativas, como o enfraquecimento do mundo romano e a formação da economia medieval.
Ver 0 Comentários