O que aconteceu em Camaçari, na Bahia, colocou a BYD no centro de uma das maiores crises trabalhistas recentes envolvendo o setor automotivo no Brasil. Agora, pouco mais de um ano depois do escândalo vir à tona, a montadora chinesa decidiu fechar um acordo milionário para tentar encerrar o caso na Justiça do Trabalho — e, ao mesmo tempo, conter o desgaste em sua imagem.
Firmado em 26 de dezembro de 2025, o acordo envolve a BYD Auto do Brasil e duas empreiteiras responsáveis pelas obras da futura fábrica: China Jinjiang Construction Brazil e Tecmonta Equipamentos Inteligentes. Juntas, as empresas aceitaram pagar R$ 40 milhões após o resgate de trabalhadores chineses submetidos a condições análogas à escravidão.
O valor ficou muito abaixo do que o Ministério Público do Trabalho (MPT) pedia inicialmente — R$ 250 milhões —, mas ainda assim representa uma das maiores indenizações do tipo no País. Metade do montante, cerca de R$ 20 milhões, será destinada diretamente às vítimas, como compensação por dano moral individual. Na prática, cada trabalhador deve receber algo próximo de R$ 89 mil. Os outros R$ 20 milhões serão destinados a dano moral coletivo, a serem distribuídos posteriormente para instituições e fundos indicados pelo MPT.
Embora as empreiteiras sejam, formalmente, responsáveis pelos pagamentos, a BYD entra no acordo como avalista: se houver descumprimento, caberá à montadora garantir que o dinheiro chegue aos trabalhadores. O entendimento ainda precisa ser homologado pela Justiça do Trabalho. Depois disso, passa a valer imediatamente — com risco de multa de R$ 20 mil por trabalhador prejudicado em caso de novas irregularidades.
O caso começou em dezembro de 2024, quando fiscais resgataram 224 operários chineses nas obras em Camaçari. Segundo o MPT, havia jornadas exaustivas, alojamentos precários, restrição de locomoção, retenção de documentos e indícios de tráfico internacional de pessoas. Muitos deles, inclusive, tiveram dificuldade para deixar o país — e parte voltou à China sem receber direitos trabalhistas básicos.
A ação civil pública apresentada em maio de 2025 buscava responsabilizar as empresas e garantir indenizações individuais e coletivas. O acordo agora encerra o processo, desde que homologado, e impõe obrigações adicionais para prevenir novos abusos em futuras operações.
Para uma montadora que tenta se firmar como protagonista da transição elétrica no Brasil, o episódio serve como alerta duro: não basta investir em tecnologia e fábricas — a cadeia de produção também precisa respeitar, de forma rigorosa, os direitos humanos e trabalhistas.
Crédito de imagem: Xataka Brasil
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