O que acontece com a IA na Rússia? A corrida da inteligência artificial tem como protagonistas os EUA e a China, o que torna surpreendente que uma potência como a Rússia não pareça estar avançando nesse campo. Na realidade, ela está, mas sua situação é preocupante.
Embora pouco se fale sobre eles, existem vários modelos de IA desenvolvidos por empresas russas, voltados principalmente para seus próprios cidadãos. O país não tem acesso a modelos ocidentais como o ChatGPT ou o Claude, mas conta com alternativas como:
- GigaChat: provavelmente o modelo russo mais avançado. É desenvolvido pela instituição financeira Sberbank e está disponível via web, embora seja necessário ter conta nessa instituição para utilizá-lo.
- Yandex Alice: a empresa que há anos oferece um buscador semelhante ao Google também tem seu próprio modelo de IA, chamado Alice AI. Ele pode ser usado pela web tanto em inglês quanto em russo, como um chatbot tradicional.
- MTS AI: uma das maiores operadoras de telecomunicações da Rússia também possui seu próprio modelo, o MTS AI, mais voltado para empresas e desenvolvedores, com seus modelos Cotype, que recentemente passaram a suportar a criação de agentes para aplicações empresariais.
Em desvantagem
O bloqueio de chips e tecnologias avançadas provenientes dos EUA foi um dos fatores que deixou esses modelos claramente atrás dos mais recentes de empresas como a OpenAI ou a Anthropic. Isso fica evidente no lançamento, há três meses, do GigaChat-3.1-Ultra-702B, um modelo de pesos abertos derivado do DeepSeek 702B A36B. Nos benchmarks publicados, o desempenho desse modelo está no nível do DeepSeek v3 (lançado em dezembro de 2024) e do Qwen3-235B (lançado em abril de 2025). Esse modelo, inclusive, está disponível no Hugging Face.
China e Rússia mantêm há muito tempo uma aliança geopolítica que impacta diversos setores. O curioso é que, na área de IA, esse impacto está sendo menos perceptível do que se poderia esperar. Os modelos de IA russos são baseados em modelos abertos chineses, mas, por enquanto, parecem ser versões um pouco antigas que depois são adaptadas para o russo. E, como acontece com os modelos chineses — que censuram certos temas —, os modelos russos aplicam filtros semelhantes para evitar questões sensíveis.
O grande problema enfrentado pela Rússia é o mesmo da China, mas amplificado. O país não tem acesso a chips avançados da Nvidia para treinar seus modelos, então tem buscado atalhos para contornar restrições comerciais e desenvolver esses sistemas.
A Sberbank, por exemplo, está tentando obter acesso a chips de IA chineses como os Huawei Ascend 950 para seus projetos, mas há dois problemas aí. O primeiro é que esses chips são voltados para inferência de modelos, não para treinamento. O segundo é que, por enquanto, quem tem acesso prioritário a esses chips são as próprias empresas chinesas, que estão reservando grandes quantidades para seus projetos futuros. ByteDance, Tencent e Alibaba fizeram pedidos importantes que deixam a Rússia em uma situação complicada.
Chips russos no futuro (distante)
Esses problemas de acesso a chips especializados podem ser resolvidos se a Rússia conseguir impulsionar sua indústria de semicondutores. A Baikal Electronics vem trabalhando em alternativas aos chips x86 da Intel e AMD, mas também promete desenvolver chips de IA em 2029 ou 2030. Mais uma vez, os vetos comerciais e tecnológicos fazem com que essas iniciativas ainda não consigam competir com os avanços mais recentes de suas concorrentes ocidentais, pelo menos por enquanto.
O desenvolvimento de LLMs russos não busca apenas oferecer uma opção aos cidadãos do país, mas também aplicações militares. A guerra na Ucrânia revelou, inclusive, o uso de mini PCs de IA da Nvidia Jetson em sistemas ligados a mísseis Shahed.
A Rússia tem uma situação muito difícil. O cenário atual no país torna complicado, pelo menos por enquanto, que ele consiga propor alternativas relevantes aos modelos de IA mais avançados dos EUA ou da China (ou até mesmo da Europa). A guerra com a Ucrânia também provocou um êxodo de talentos e engenheiros russos, embora empresas como a Sberbank tenham tentado impulsionar campanhas para atrair talentos no meio universitário.
Tudo isso se soma ao difícil acesso da Rússia ao hardware e software mais avançados e à sua dependência de um aliado como a China, que, por sua vez, está priorizando suas próprias empresas de IA.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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