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Especialistas chegaram a uma conclusão: os vídeos 'incríveis' que você vê nas redes são, na verdade, lixo digital gerado por IA

Brasil ocupa o quarto lugar no ranking global de audiência de canais com conteúdo de IA de baixa qualidade

Homem no computador criando vídeo. Créditos: ShutterStoock
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Vídeos estranhos, repetitivos e visualmente chamativos estão se espalhando pelas redes sociais em uma velocidade impressionante, e existem dados que ajudam a explicar essa dinâmica na internet. Um relatório divulgado pela plataforma Kapwing, em novembro de 2025, analisou canais populares do YouTube em diversos países e identificou um crescimento significativo de vídeos gerados por inteligência artificial com baixo valor informativo

Segundo o estudo, esse tipo de conteúdo já representa entre 21% e 33% do que novos usuários veem no feed de vídeos curtos da plataforma. O Brasil aparece em posição de evidência nesse ranking, ocupando o quarto lugar global em número de seguidores de canais desse tipo. A pesquisa levanta um alerta sobre o impacto desse tipo de conteúdo, definido por muitos como “lixo digital”, na experiência dos usuários e no próprio valor criativo da internet.

Vídeos sem sentido feitos por IA dominam o YouTube

O levantamento da Kapwing partiu da análise dos 100 canais mais populares do YouTube em dezenas de países, identificando aqueles que produzem conteúdo classificado como “IA de baixa qualidade” ou brainrot, que nada mais são do que vídeos repetitivos, sem narrativa clara ou informação considerada relevante, criados para prender a atenção e gerar visualizações. O resultado mostra que, em alguns mercados, esses canais acumulam audiências comparáveis às de criadores tradicionais. Veja a seguir um exemplo de vídeo:

A Espanha lidera em número total de inscritos em canais desse tipo, somando mais de 20 milhões, enquanto a Coreia do Sul se destaca pelo volume de visualizações, com cerca de 8,4 bilhões. Já o Brasil aparece em quarto lugar no ranking global de inscritos, com aproximadamente 12,5 milhões de seguidores em canais que usam IA para produzir vídeos automatizados.

Na maioria das vezes, o sucesso não vem da qualidade do conteúdo, mas de alcance massivo, do uso de temas populares e de formatos fáceis de consumir, como vídeos curtos e imagens quase realistas geradas por algoritmos.

Canais de “IA slop” faturam milhões e competem com criadores humanos

Além da audiência expressiva, o relatório também destaca o potencial financeiro desses canais. Usando estimativas do Social Blade,  plataforma online gratuita que rastreia e analisa estatísticas de desempenho, a Kapwing aponta que alguns dos maiores produtores de vídeos gerados por IA podem faturar milhões de dólares por ano apenas com publicidade.

O canal mais assistido do mundo nesse segmento, por exemplo, acumula mais de 2 bilhões de visualizações e tem receita anual estimada em mais de US$4 milhões. Em comum, esses canais apostam em fórmulas repetitivas, exibindo animais hiper-realistas em situações humanas, histórias fantasiosas, personagens conhecidos em contextos absurdos e variações de um mesmo vídeo.

Esse modelo cria um dilema, pois ao mesmo tempo em que a IA é tratada como uma grande inovação criativa, a proliferação desse tipo de conteúdo automático e descartável é visto como uma ameaça por afastar anunciantes e sufocar criadores que investem tempo, roteiro e originalidade em seus vídeos.

O sucesso do “brainrot” no Youtube mostra como os algoritmos premiam repetição em vez de qualidade

Para entender a experiência do usuário comum, a Kapwing também simulou a criação de uma nova conta no YouTube e analisou os primeiros 500 vídeos exibidos no feed de Shorts. O resultado revelou que cerca de um terço do conteúdo era considerado de baixa qualidade ou irrelevante, e mais de um quinto havia sido gerado por inteligência artificial.

No fim das contas, o crescimento do “brainrot” é resultado direto de algoritmos que premiam repetição, volume e retenção acima de contexto, qualidade ou intenção criativa. Ao favorecer esse tipo de conteúdo, as plataformas empurram usuários para um consumo cada vez mais automático. O relatório da Kapwing não aponta soluções, mas especialistas acreditam que ignorar esse movimento pode ter consequências, como dificuldade de distinguir informação, entretenimento e manipulação. 


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