Proibir em casa não é suficiente: estudo da USP expõe a verdadeira "arma secreta" para derrubar o consumo de ultraprocessados entre os jovens

Cantinas escolares são essenciais para a mudança dos hábitos alimentares

Foto: Sergio Amaral/Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social
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Natália P. Martins

Redatora
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Natália P. Martins

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Um novo estudo da Universidade de São Paulo (USP), publicado na revista Reports in Public Health, revelou que a presença de regulamentação sobre a venda de alimentos em escolas públicas e privadas está diretamente associada à redução do consumo de ultraprocessados entre adolescentes

Segundo os pesquisadores, as normas que limitam ou proíbem a comercialização desses produtos em cantinas funcionam como fator de proteção, reduzindo a exposição dos estudantes a refrigerantes, salgadinhos e doces industrializados.

Ambiente escolar é um ponto decisivo para a alimentação

O levantamento da USP analisou capitais brasileiras e constatou que quanto maior a oferta de ultraprocessados nas cantinas, maior é o consumo entre os alunos.  O dado reforça a importância de políticas públicas voltadas ao ambiente escolar, onde boa parte das decisões alimentares dos adolescentes acontece fora do controle familiar.

A constatação coincide com o Decreto nº 11.821/2023, elaborado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), que estabelece diretrizes para a promoção da alimentação adequada nas escolas.

O texto se apoia em três eixos principais: educação alimentar e nutricional, regulação da comercialização e doação de alimentos e controle da comunicação mercadológica voltada ao público infantil.

Oferta de ultraprocessados em escolas é o maior desafio

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2019, metade dos alunos do 9º ano em capitais brasileiras estudava em escolas com cantinas. Nas escolas privadas, essa presença chegava a 96%, enquanto nas públicas atingia 27,9%.

Refrigerantes estavam disponíveis para 50% dos estudantes dentro das cantinas e para 78% quando incluídos os pontos de venda nos arredores, o que evidencia a influência do ambiente externo imediato.

Outro levantamento, o Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes (ERICA), mostrou que escolas privadas lideram em propaganda e venda de ultraprocessados:

  • 75,2% ofereciam refrigerantes (contra 34,9% das públicas);
  • 79,7% vendiam guloseimas (contra 35,7% das públicas);
  • 14,4% tinham máquinas de autoatendimento (contra 5,5% nas públicas).

De acordo com Laura Luciano Scaciota, pesquisadora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, “uma lei nacional e mandatória poderia uniformizar esse cenário, garantindo que nenhuma criança ou adolescente tenha acesso à compra de alimentos ultraprocessados nas cantinas escolares”.

Regulação local é vista como essencial para a mudança de hábitos

A Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, vinculada ao MDS, coordena a Estratégia Alimenta Cidades, que apoia municípios na criação de legislações locais sobre o tema. 

Em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), já foram protocolados 19 Projetos de Lei — quatro deles aprovados e três em fase de implementação. Até o momento, 31 localidades foram alcançadas, beneficiando mais de 21 milhões de estudantes.

Para a secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Lilian Rahal, o avanço depende de articulação entre os governos.

“A partir da implementação de legislações locais é possível avançar de fato no fortalecimento de uma agenda alimentar urbana que trate dos ambientes alimentares saudáveis nas escolas, ampliando principalmente o acesso e o consumo de alimentos saudáveis nesses ambientes", afirmou. 

Estudo indica que disponibilidade de alimentos influencia na percepção dos alunos

De acordo com o estudo da USP, a imposição de normas para reduzir a disponibilidade de alimentos ultraprocessados nas escolas é um ponto crucial para influenciar a percepção dos alunos sobre o que é saudável. Ou seja, ao reduzir a exposição cotidiana a ultraprocessados, as escolas ajudam a redefinir padrões de consumo e a formar preferências mais saudáveis a longo prazo.

Foto de capa: Sergio Amaral/Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social

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