O grande paradoxo do mercado imobiliário na Espanha: preços estão subindo constantemente, mas cada vez mais pessoas compram casas sozinhas

Número de pessoas que financiam imóveis sozinhas e a presença de solteiros no mercado imobiliário estão aumentando

Imagem | Alexia Bibire
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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O mercado imobiliário espanhol está dando sinais curiosos. Em meio à alta dos preços, com o metro quadrado residencial (m²) aproximando-se dos valores anteriores à bolha imobiliária, cada vez mais pessoas optam por comprar uma casa sozinhas, sem dividir o peso do financiamento com um parceiro. Há três indicadores que apontam nessa direção.

O primeiro é o claro aumento de residências para apenas uma pessoa na Espanha, que devem representar 33% do total. O segundo, o crescente peso dos solteiros no mercado imobiliário. E o terceiro, o número cada vez maior de compradores que financiam seus imóveis sozinhos. Tudo isso enquanto a população de solteiros no país aumenta, chegando a cerca de 15 milhões de pessoas.

Mais solteiros nas imobiliárias?

Exatamente. Isso se reflete claramente no último estudo da Fotocasa Research sobre o mercado imobiliário espanhol: se em 2023 os solteiros representavam 25% dos interessados ​​em comprar um imóvel, em 2024 esse percentual subiu para 31%. Agora, está em torno de 32%.

Curiosamente, a tendência tem sido bem mais hesitante no mercado de locação. Segundo a Fotocasa, após a pandemia, a proporção de inquilinos que vivem sozinhos aumentou consideravelmente, passando de 15% em 2021 para 18% em 2023. Desde então, esse aumento desacelerou e se reverteu, caindo novamente para 16%.

Gráfico

Há mais dados?

Recentemente, o El País publicou os resultados detalhados do estudo da Fotocasa, nos quais a tendência é mais claramente observada. Seus gráficos refletem que, em 2018, apenas 23% dos "compradores e demandantes" de imóveis eram solteiros. Hoje, e porcentagem gira em torno de 38%, ligeiramente superior aos 32% do estudo original da Fotocasa Research. Isso porque inclui tanto aqueles que já formalizaram a compra de um imóvel quanto aqueles que estão considerando fazê-lo. Em sua análise, o El País também menciona, de forma vaga, a população "solteira" e as pessoas que "vivem sozinhas".

Se nos concentrarmos em pessoas casadas e em união estável, a tendência é oposta: em 2018, elas representavam 70% da demanda por imóveis residenciais. Hoje, essa participação caiu para cerca de 51%.

E quanto aos financiamentos imobiliários?

Este é outro indicador importante de que algo está mudando no mercado imobiliário espanhol. Embora possa chamar a atenção devido ao aumento do custo da moradia, cada vez mais pessoas optam por financiar seus imóveis sozinhas, sem a ajuda de um parceiro para dividir as despesas.

Isso se reflete claramente nos dados da empresa iAhorro, que constatou um aumento de 7,5 pontos percentuais no número de pessoas que financiam seus imóveis sozinhas em poucos anos. De 37,5% em 2022, esse número subiu para pouco mais de 45%. As porcentagens são baseadas em dados coletados pela própria iAhorro, portanto, devem ser interpretadas com cautela, mas ainda assim são reveladoras.

Há mais pessoas morando sozinhas?

Não é exatamente uma novidade, mas os dados falam por si. O INE estima que, no início do ano passado, havia 5,4 milhões de domicílios com apenas uma pessoa na Espanha. Se as tendências atuais não mudarem, em 2039 haverá mais de 7,7 milhões, o que significa que esses domicílios são o tipo que registrará o maior crescimento na próxima década e meia, tanto em valores absolutos quanto relativos. De fato, no final da década de 2030, eles já representarão um terço do número total de domicílios no país.

"Estamos testemunhando uma profunda transformação do modelo social. Em uma década, o número de pessoas que moram sozinhas dobrou", reconhece María Matos, porta-voz da Fotocasa. "Essa mudança tem um reflexo direto no mercado imobiliário, pois multiplica a demanda por apartamentos menores e aumenta a pressão sobre a oferta".

O fenômeno coincide com um aumento evidente da população solteira no país, que passou de 14 milhões no início de 2021 para 14,9 milhões no final de 2023, um aumento de 6,5%. Durante o mesmo período, o número de casados ​​praticamente não se alterou, passando de 20 milhões para 20,12 milhões, um aumento de 0,5%.

Será que se trata apenas de habitação?

O mercado imobiliário é um reflexo da sociedade. Mais pessoas compram imóveis sozinhas porque os estilos de vida mudaram ao longo das décadas. "Não é novidade que haja cada vez mais pessoas vivendo sozinhas. Isso vem acontecendo nos últimos 20 ou 30 anos, e é por isso que muitos agora deixaram seus medos para trás e embarcaram nessa aventura", afirma Antonio Cano, professor de Psicologia.

O aumento nas compras entre solteiros também coincide com outras duas tendências relevantes: novas hipotecas mais baratas, que já começam a se estabilizar, e a atratividade do mercado imobiliário para investidores em meio à alta dos preços, o que inclusive motiva compras expressas via Telegram.

Quem compra?

Diante dos dados, a pergunta é óbvia: quem compra uma casa sozinho agora na Espanha? Quem opta por assinar um financiamento imobiliário sozinho? “Estamos falando de pessoas com alto poder aquisitivo, jovens com uma clara preferência por processos rápidos, simples e 100% online”, explica o gerente geral da Trioteca, um site de comparação de hipotecas, que lembra que essa independência lhes permite contratar hipotecas com muito mais agilidade.

A foto é semelhante à fornecida pela iAhorro. Segundo seus registros, os solteiros que estão solicitando hipotecas atualmente na Espanha têm uma média de idade de 38,2 anos, contrato por tempo indeterminado, mais de sete anos de antiguidade em suas empresas e um salário líquido mensal que ultrapassa ligeiramente os 3.000 euros. Eles também chegam ao mercado com uma reserva financeira sólida de mais de 80.000 euros. A grande maioria concentra sua atenção em imóveis usados, com preço médio de 234.000 euros.

Imagens | Alexia Bibire e INE

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