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O plano de Elon Musk: transformar suas empresas em uma “Companhia das Índias” do século 21 mais forte que governos

O Ocidente terceirizou tantas capacidades sensíveis para Musk que regular agora seu império seria uma auto-humilhação

SpaceX / Imagem: Xataka
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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A SpaceX acaba de comprar a xAI. No papel, pode parecer apenas mais uma fusão dentro do império de Musk. Mas junte tudo e você verá que é outra coisa.

  • A SpaceX lança satélites militares classificados e tem contratos bilionários com o Pentágono.
  • A xAI tem o Grok dentro do Departamento de Defesa há duas semanas, processando dados que passam por bases militares.
  • O X é onde se disputam as narrativas que movem eleições e conflitos.
  • A Starlink fornece conectividade em zonas de conflito como a Ucrânia, decidindo de fato quais áreas da linha de frente têm conexão e quais não.

Tudo isso agora opera sob o mesmo teto. E não é um conglomerado comum. Parece mais com o que, em outros séculos, foram as Companhias das Índias: entidades privadas, mas com capacidades quase soberanas. Em vez de exércitos, Musk tem foguetes, infraestrutura de telecomunicações operando em escala global, controle de fluxos informativos e acesso à inteligência militar.

A diferença é que os impérios podiam dissolver essas companhias quando elas se tornavam problemáticas. Aqui é o contrário. O Ocidente terceirizou tantas coisas sensíveis, desde lançamentos espaciais até conectividade em conflitos, passando por satélites e processamento de inteligência, que impor limites a Musk é dar um tiro no próprio pé.

Como você vai regular o sujeito que lança seus satélites espiões, te mantém conectado em guerra e processa seus dados confidenciais?

Cada passo isolado nunca levantou suspeitas porque sempre fez sentido:

  • A SpaceX era mais barata que a Boeing ou a Lockheed.
  • A Starlink resolveu problemas onde os cabos não chegam.
  • Colocar IA em dados militares era questão de tempo.

Mas ninguém desenhou isso como um sistema. Foi acontecendo sozinho, contrato após contrato. E agora você tem um ator privado com mais capacidade operacional em certos domínios do que alguns países.

Não é um monopólio que você possa fatiar. É infraestrutura crítica concentrada em alguém que, além disso, controla megafones midiáticos, tem capital político direto e opera no limbo regulatório do espaço. Separar isso tem muito mais a ver com geopolítica do que com telecomunicações ou concorrência. Que governo vai se atrever a encher o saco de quem controla suas comunicações militares?

A fusão com a xAI apenas torna visível o que já existia. Musk não precisava juntar as empresas formalmente porque elas já compartilhavam dados, engenheiros e infraestrutura. Colocar isso no preto no branco é admitir publicamente o que operava nas sombras: um conglomerado com alcance estratégico que vai além do que as democracias liberais conceberam como possível para um ator privado.

O Ocidente entrou sozinho nessa armadilha. Ninguém o obrigou e os governos não podem apontar para um presidente chinês e nem transferir a responsabilidade para uma ameaça externa. Desejava-se inovação rápida mantendo os custos baixos, então entregou-se capacidades sensíveis a alguém que agora é grande demais para ser tocado.

Os incentivos faziam sentido no início. Já não está claro que continuem fazendo. Mas isso já não importa. O ponto de não retorno foi ultrapassado há muito tempo.

Imagem | SpaceX

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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