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Guerra na Ucrânia: soldados russos sofrem com as “kill zones”, corredores onde qualquer movimento humano pode ser detectado por drones mortais

Para escapar, soldados apelam para uso de máscaras, esconderijos e até a tática de ficarem completamente imóveis

Drones
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

1988 publicaciones de Victor Bianchin

Alguns anos antes do início da guerra na Ucrânia, um professor de informática de Berkeley apresentou na ONU um curta chamado “Slaughterbots”, uma obra em que pequenos drones com reconhecimento facial perseguiam pessoas de forma autônoma. Na época, muitos viram aquilo como mais um exagero tecnológico no estilo da série Black Mirror.

Poucos anos depois, o curta… ficou pequeno demais.

Durante boa parte da guerra na Ucrânia, os drones eram vistos como uma arma de apoio destinada a destruir blindados, corrigir fogo de artilharia e vigiar movimentos inimigos. Essa fase vem desaparecendo rapidamente. O que está surgindo agora é algo muito mais inquietante: drones baratos, produzidos aos milhões, projetados especificamente para perseguir e matar soldados individualmente.

A revista Forbes relata que os próprios canais militares russos estão alertando sobre drones FPV ucranianos equipados com visão térmica, sistemas de reconhecimento e munições capazes de disparar projéteis explosivos à distância diretamente contra um corpo humano.

O detalhe que mais tem gerado medo não é a arma em si, mas a possibilidade de esses drones já estarem aprendendo a identificar onde atacar para maximizar a letalidade. A ideia de pequenos aparelhos autônomos “caçando” pessoas específicas já não pertence mais às distopias tecnológicas nem aos vídeos virais do YouTube: ela começa a fazer parte da rotina da linha de frente.

Uma gigantesca zona de caça aérea

A consequência mais profunda dessa revolução é que enormes partes da linha de frente se transformaram em “kill zones”, corredores onde qualquer movimento humano pode ser detectado e destruído pelo ar em questão de minutos. A Ucrânia aperfeiçoou especialmente esse modelo ao redor de cidades como Kostyantynivka e Chasiv Yar, onde pequenos grupos russos são identificados muito antes de se aproximarem das linhas defensivas.

O resultado tem sido devastador para as doutrinas clássicas russas: grandes colunas blindadas e assaltos mecanizados se tornaram visíveis e vulneráveis demais. Em resposta, Moscou está tentando criar seus próprios “corredores de drones”, infiltrando pequenas equipes de operadores que se escondem em porões, prédios destruídos e fileiras de árvores para construir bolhas temporárias de domínio aéreo local. Em outras palavras, a guerra já não consiste apenas em controlar o terreno: consiste em controlar o céu a poucos metros acima da cabeça de cada soldado.

O mais importante desses novos sistemas não é o tamanho da carga explosiva, mas a inteligência que começa a guiá-los. Muitos drones FPV ucranianos já integram módulos de autonomia capazes de continuar o ataque mesmo quando o operador perde o sinal devido a interferências eletrônicas. Empresas ocidentais e desenvolvedores civis criaram kits relativamente baratos que transformam drones comerciais em munições inteligentes capazes de fixar alvos e persegui-los automaticamente.

Até pouco tempo atrás, essa autonomia era utilizada principalmente contra veículos; agora, o foco está se deslocando para a infantaria. Alguns modelos utilizam cargas EFP, projéteis explosivos moldados que não precisam atingir diretamente para atravessar proteções e matar o alvo a certa distância. Isso elimina muitas das defesas improvisadas que haviam se espalhado pela linha de frente, desde redes metálicas até os famosos “turtle tanks” russos. O problema para os soldados é que se esconder já não garante sobrevivência: o drone pode continuar observando, esperar o momento exato e atacar quando detectar uma vulnerabilidade.

Os “Slaughterbots” deixaram de parecer exagerados

Como dissemos no início, em 2017 o professor Stuart Russell lançou o curta “Slaughterbots” como um alerta sobre drones autônomos com reconhecimento facial capazes de assassinar pessoas específicas. Naquele momento, parecia um exagero futurista pensado para abrir debates éticos sobre inteligência artificial militar. Nove anos depois, os paralelos começam a se tornar desconfortáveis até mesmo para quem combate no terreno.

Soldados russos estão desenvolvendo contramedidas que parecem saídas de um filme de ficção científica: usar máscaras para confundir sistemas de reconhecimento, lançar capacetes como iscas, esconder a cabeça atrás de obstáculos ou permanecer completamente imóveis para evitar rastreamento térmico.

Essa obsessão reflete uma enorme mudança psicológica. Durante séculos, um soldado podia tentar se proteger do fogo inimigo usando cobertura, blindagem ou distância. Agora, muitos combatentes sentem que existe uma câmera os observando permanentemente do alto, capaz de decidir quando atacar e, possivelmente, onde atingir para garantir a morte.

O grande temor russo é que a Ucrânia consiga combinar produção em massa, autonomia e precisão em uma escala inédita. Kiev pretende fabricar milhões de drones FPV por ano, o que muda completamente a lógica do combate. Se um drone relativamente barato pode perseguir soldados com taxas de acerto próximas de 80%, o desgaste humano começa a adquirir dimensões industriais. Por isso, a Rússia tenta desesperadamente construir seus próprios corredores de drones, implantar interceptadores e saturar o espaço aéreo local antes de movimentar tropas maiores.

No entanto, a Ucrânia mantém vantagem tanto em quantidade quanto em sofisticação tecnológica, especialmente em ópticas, navegação autônoma e interceptação aérea. O que está sendo visto no Donbas não é simplesmente uma evolução tática da guerra de drones: trata-se do nascimento de uma nova forma de combate em que milhares de máquinas semiautônomas competem continuamente para detectar, perseguir e eliminar seres humanos individualmente.

E o mais inquietante é que essa transformação está apenas começando.

Imagem | Defense Ukraine

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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