Os jovens da Geração Z trocaram a pausa para o café ou para o cigarro, comum em gerações anteriores, por um hábito bem mais conectado ao seu tempo: assistir séries e filmes durante a jornada de trabalho.
A prática, impulsionada pelo trabalho remoto, chegou a ser apontada como uma das razões pelas quais muitos jovens não queriam voltar ao escritório. Mas a relação da Gen Z com o streaming no trabalho parece ser mais complexa do que uma simples distração.
A mesma geração que, há pouco tempo, citava as plataformas de vídeo como motivo para rejeitar o retorno presencial agora aparece entre as que mais voltam voluntariamente ao escritório. O streaming, porém, não desapareceu. Ele apenas mudou de significado.
Para a Gen Z, série no trabalho virou "ruído branco"
Para muitos jovens, assistir a uma série ou deixar um filme rodando em segundo plano funciona como uma espécie de ruído branco.
A lógica é parecida com ouvir música, colocar um podcast de fundo ou manter algum estímulo constante enquanto realiza tarefas. Em vez de significar necessariamente falta de foco, o hábito pode funcionar como uma forma de manter o cérebro estimulado durante atividades repetitivas ou solitárias.
No trabalho remoto e híbrido, os limites entre expediente e entretenimento ficaram mais borrados. Para alguns profissionais, isso aparece em distrações com tarefas domésticas. Para a Geração Z, o streaming passou a ocupar esse lugar.
O dado que chama atenção
Um levantamento com mais de 2.500 entrevistados mostrou que 84% dos trabalhadores da Geração Z admitiam assistir séries ou filmes enquanto trabalhavam remotamente.
O número assusta à primeira vista. Afinal, para qualquer gestor obcecado por produtividade, imaginar funcionários acompanhando episódios durante o expediente parece um sinal claro de distração.
Mas a pesquisa também ajuda a mostrar outra camada do comportamento. Em muitos casos, esse consumo não acontece como uma pausa total no trabalho, mas como um pano de fundo usado para regular concentração, estímulo e ritmo.
Ainda assim, há pontos de alerta. O mesmo levantamento indicou que 53% dos jovens já haviam adiado tarefas para terminar um episódio ou concluir um filme. Além disso, 52% citavam o streaming como uma razão para não querer voltar ao escritório.
Nem todo estímulo é distração
Para Simran Bhatia, líder de Operações Pessoais da Reality Defender, a chave está em entender que ver algo em segundo plano, ouvir um podcast ou trabalhar com música não significa, automaticamente, perda de produtividade.
Na visão dela, em vez de criar regras rígidas em torno desses hábitos, líderes mais progressistas deveriam pensar em como desenhar ambientes de trabalho, presenciais ou remotos, que reflitam a forma como essa geração funciona melhor.
A ideia é que cada geração contribui para mudar a cultura do trabalho de algum jeito. Com a Gen Z, uma dessas mudanças parece estar justamente na forma de equilibrar foco, estímulo e entretenimento.
O streaming não saiu do expediente
Mesmo com a volta gradual aos escritórios, o streaming continua fazendo parte da rotina de muitos jovens profissionais.
E isso não significa que o consumo seja totalmente passivo. Segundo o relatório anual da Tubi para 2026, 77% dos jovens dessa faixa etária preferem escolher o que assistir sob demanda em vez de acompanhar uma programação fixa.
Outro dado mostra como filmes e séries também ajudam a formar identidade. De acordo com o levantamento, 65% dos jovens dizem se sentir parte de uma comunidade com base nas séries e filmes que assistem, um crescimento de 15% em relação ao relatório de 2025.
Ou seja, o streaming não é apenas entretenimento. Para essa geração, ele também funciona como repertório social, assunto de conversa e marcador de pertencimento.
A volta ao escritório tem outro motivo
O ponto mais curioso é que, ao mesmo tempo em que a Gen Z mantém o streaming como companheiro de trabalho, ela também está liderando um retorno silencioso aos escritórios.
O motivo é simples: solidão.
Segundo dados da Gallup, 27% dos trabalhadores da Geração Z dizem se sentir sozinhos com frequência. O percentual é quase o dobro do registrado entre profissionais da Geração X e perto do triplo dos baby boomers.
Trabalhar da mesa da cozinha parecia liberdade em 2021. Em 2026, para muitos jovens no início da carreira, virou também um fator de isolamento.
Eles querem escritório, mas com escolha
Para a Gen Z, o escritório voltou a ter valor porque oferece algo que o trabalho remoto nem sempre entrega: convivência, mentoria, contatos e visibilidade.
Esses pontos pesam especialmente para quem está começando a trajetória profissional e precisa aprender com pessoas mais experientes, construir relações e ser lembrado para novas oportunidades.
Segundo a pesquisa anual de escritórios da Remit Consulting de 2026, 80% dos jovens de 18 a 34 anos que frequentam o escritório regularmente afirmam que essa escolha é deles.
Esse detalhe é importante. O que muitos jovens querem não é uma volta obrigatória ao presencial, mas um modelo híbrido em que possam decidir quando faz sentido estar no escritório.
O novo equilíbrio da Gen Z
O retrato que surge desses dados é mais complexo do que parecia há um ano.
A Geração Z continua usando o streaming como companhia no trabalho, seja para se concentrar, seja para desconectar entre tarefas. Mas também passou a enxergar o escritório como um espaço importante para criar vínculos, aprender e ganhar visibilidade.
No fim, a contradição é só aparente. A Gen Z não abandonou o streaming e também não rejeita totalmente o escritório. Ela está tentando montar uma rotina em que estímulo, autonomia e convivência consigam existir ao mesmo tempo.
Texto traduzido e adaptado do 3djuegos.
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