Dez anos atrás, a espera média entre temporadas de séries originais nas principais plataformas de streaming era de 10 meses. Em 2025, esse número chegou a 21 meses, segundo um relatório da Ampere Analysis publicado em maio de 2026. A análise abrange 1.611 séries originais em plataformas como Netflix, Prime Video, Apple TV+, Disney+, HBO Max, Hulu, Paramount+ e Peacock. A empresa batizou o fenômeno de “efeito Stranger Things”.
Embora a pandemia não seja a causa final desse fenômeno, seu impacto é inegável na mudança de paradigma. O intervalo entre temporadas já vinha crescendo lentamente até que a pandemia de 2020 o fez saltar de 12 para 16 meses em apenas um ano. Depois disso, o dado se estabilizou relativamente até que as greves de roteiristas e atores de 2023 provocaram o segundo grande salto: de 17 para 21 meses entre 2023 e 2024. Em 2025, a tendência se estabilizou, ao menos por enquanto.
Mas é preciso entender o contexto para além de “a indústria parou por causa da pandemia”. Por exemplo, em 2022 estávamos no auge da “guerra do streaming” e as grandes plataformas lançaram 599 temporadas de séries originais — ou seja, mais conteúdo do que em todo o período de 2015 a 2019. Tudo bem, a pandemia tinha abalado a economia, mas esse volume de produção também esgotou recursos humanos, estúdios e calendários. Quando vieram as paralisações forçadas, primeiro por causa da pandemia e depois pelas greves, o gargalo tornou-se inevitável.
A contrapartida: funciona
O ponto é que, diferentemente do que o senso comum poderia sugerir, o relatório detecta que as séries que retornaram após mais de trinta meses de pausa (ou seja, dois anos e meio) registraram a maior atividade de buscas na internet no mês de estreia. Por exemplo, Stranger Things acumulou um aumento de 300% nas visualizações durante o segundo semestre de 2025, antes da estreia de sua temporada final, com um pico especialmente forte na primeira temporada: eram novos espectadores descobrindo a série e fãs revisitando episódios anteriores. Wandinha e Severance quase dobraram a média de engajamento de suas plataformas.
Há uma leitura possível desses dados: o modelo dos blockbusters cinematográficos migrou para a televisão. Se um filme muito aguardado de uma franquia gera expectativa meses antes da estreia, uma temporada muito aguardada de uma série também gera — o lançamento anual rotineiro não permitiria que essa antecipação fosse criada.
Isso se soma a outro fator: às vezes, séries de grande complexidade (efeitos, roteiro, pós-produção, elenco, como no caso das três mencionadas) exigem mais tempo. O caso da segunda temporada de Severance e suas múltiplas reescritas é significativo.
Ou seja, assim como os blockbusters, há séries que exigem mais tempo de produção do que a média. Por isso, demoram mais para chegar ao público, mas também geram mais expectativa, já que o público espera que a demora seja compensada com mais espetáculo.
O risco
Essa prática pode gerar expectativa, sim, mas há um perigo para as plataformas que a Ampere destaca: “Os streamers precisam equilibrar os prazos de produção dos grandes títulos com um fluxo constante de conteúdo. As lacunas prolongadas podem gerar antecipação em torno dos títulos principais, mas também podem levar o público a cancelar assinaturas e voltar apenas quando suas séries favoritas retornam”. É o fenômeno do churn and return, isto é, cancelar uma assinatura e renová-la quando a série volta, algo que, do ponto de vista da receita mensal, é basicamente o mesmo que não estar assinado.
Gerar expectativa excessiva ou garantir uma audiência fiel e constante, habituada a um fluxo quase contínuo de episódios, como está acontecendo, por exemplo, com The Pitt? No meio-termo está a virtude, possivelmente: nem esticar demais até romper, nem sufocar o espectador com excesso de conteúdo. Mas pode ser tarde demais para isso.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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