O lento e certeiro declínio das TVs 8K após todo mundo achar que elas iriam dominar o mundo

Com o passar dos anos, percebemos algo importante: na realidade, não precisamos da resolução 8K

TVs 8k / Imagem: Xataka
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Relato original de Javier Pastor, do Xataka Espanha

Nos anos 80, dava para adivinhar a barba de quatro dias do Indiana Jones, mas só isso. Não dava para vê-la de verdade porque, nas fitas VHS, aquilo era mais uma sombra do que qualquer outra coisa. Nós, que já temos cabelos brancos, tivemos a sorte (ou o azar) de ter vivido tempos passados em que a resolução da imagem era algo arcano e misterioso.

Eu me contentava com a qualidade de vídeo das fitas VHS de Os Goonies ou Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida e era feliz com meu C64, seus 320x200 pixels e aquelas partidas de Match Day II com meu irmão, nas quais nós dois nos divertíamos (e brigávamos) como se estivéssemos jogando o mais recente EA Sports FC.

Depois, claro, tudo melhorou e começamos a perceber que a tal da resolução era importante. Descobrimos que os DVDs e sua resolução de 720x576 (no sistema PAL usado na Espanha; nos EUA, o NTSC chegava apenas a 720x480) eram como ver o futuro. Até que esse futuro virou passado com a chegada das resoluções HD Ready (720p) e, principalmente, Full HD (1080p). De repente, ficou absolutamente evidente que o Harrison Ford não tinha se barbeado.

Aí a coisa começou a ficar realmente séria. Tanto que, hoje em dia, essa resolução Full HD ainda continua sendo um padrão de fato na indústria, embora tenha acabado ficando em segundo plano em muitos contextos com o surgimento, a popularização e o auge da resolução 4K. Do Harrison, já não víamos apenas a barba rala começando a aparecer, mas até os poros da pele. Aquilo era (e é) maravilhoso e até um pouco inquietante: já não existia aquele efeito implícito e terrível de “embelezamento” das resoluções pobres. No Indiana, como em todo mundo, dava para ver todos os detalhes, para o bem e para o mal.

A indústria, que costuma acertar na ideia de que mais é melhor, resolveu então nos propor um novo salto. As 4K já não são suficientes, senhores: é preciso dar lugar à resolução 8K. O padrão foi criado, os fabricantes começaram a oferecê-lo em alguns modelos e os usuários, que esperavam outra revolução visual como a proporcionada pelo 4K, se depararam com a realidade.

Aquilo não fazia falta.

A insuportável leveza da resolução 8K

O choque de realidade chegou de forma errática, mas evidente. Os estudos deixaram claro que a melhora na qualidade de imagem não é especialmente perceptível, e a exigência em termos de capacidade de transmissão de dados ou armazenamento é tão grande que a distribuição de conteúdos em 8K acabou se tornando uma demonstração eterna. Quase não há exemplos decentes que defendam que esse salto compense em nível visual, e não há nenhum que sustente sua validade prática.

O mercado de televisores 8K é praticamente inexistente. Fonte: Omdia. O mercado de televisores 8K é praticamente inexistente. Fonte: Omdia.

Nos últimos tempos, essa realidade tem ficado cada vez mais clara. Como aponta o site FlatpanelsHD, a TCL já começou a abandonar o 8K, e o mesmo fez a LG Display. A Samsung é a única grande fabricante que, por algum motivo inexplicável, continua defendendo esse mercado, mas nem a LG nem a Sony — recentemente cedida à TCL — apostam mais nele.

As vendas dessas TVs atingiram seu pico em 2022, mas, desde 2015, apenas 1,6 milhão de unidades dessas televisões foram vendidas. Segundo a Omdia, há “cerca de 1 bilhão de TVs 4K em uso”.

O fracasso do 8K foi total em todos os aspectos. O mundo dos videogames era um dos que mais defendiam que essa resolução poderia, sim, fazer sentido, mas já estamos em 2026 e, embora tenhamos as placas gráficas mais potentes da história, rodar um jogo em 8K a 60 fps é quase uma utopia para a imensa maioria dos usuários. 

E não é só isso: conseguir jogar em 4K@60 já é, por si só, um grande feito em jogos AAA. E melhor nem falar de streaming de conteúdo: aproveitar em 4K, mesmo com a largura de banda de que dispomos, ainda está longe de ser a norma, e ter acesso a streaming em 8K traz desafios demais e poucas (ou nenhuma) vantagens práticas.

A matriz da distância mínima recomendada para assistir a uma tela de determinado tamanho e com certa resolução. Fonte: Universidade de Cambridge. A matriz da distância mínima recomendada para assistir a uma tela de determinado tamanho e com certa resolução. Fonte: Universidade de Cambridge.

É muito difícil perceber as diferenças em relação ao vídeo 4K. Um estudo da Universidade de Cambridge publicado na Nature revelou que só conseguiríamos notá-las se tivéssemos uma TV de 50 polegadas a um metro de distância.

Tudo joga contra a resolução 8K e, embora no futuro isso possa sem dúvida mudar, o interesse por esse tipo de conteúdo e de televisão parece ter se dissipado.

Duvido muito que o Harrison Ford se importe. Eu, certamente, não me importo.

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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