As megas construções de infraestrutura se tornaram quase uma assinatura da China moderna. Só que, no interior montanhoso de Sichuan, um desses símbolos de ambição acabou virando um alerta. Um trecho da recém-construída Ponte Shuangjiangkou Hongqi, erguida para integrar a malha rodoviária que leva ao Tibete, simplesmente desabou após um deslizamento de terra. O colapso, registrado em vídeo e amplamente compartilhado nas redes chinesas, mostra placas inteiras de concreto despencando montanha abaixo e levantando nuvens densas de poeira.
Surpreendentemente, não houve vítimas, segundo as autoridades locais. E isso não aconteceu por acaso: um dia antes da queda, equipes técnicas já haviam detectado rachaduras tanto no pavimento quanto na encosta ao lado da estrutura. A prefeitura de Ma’erkang — ou Barkham, no nome tibetano — fechou a ponte preventivamente, evitando o pior, conforme informado pelo NY Times. Na tarde de terça-feira, porém, o deslizamento avançou e levou junto o acesso e o tabuleiro do trecho afetado. Você pode ver o vídeo abaixo:
O local não é exatamente um terreno amigável para grandes obras. Sichuan é uma região sismicamente ativa, marcada pelo devastador terremoto de 2008, que deixou mais de 69 mil mortos e milhares desaparecidos. Desde então, qualquer problema geológico na província acende alertas vermelhos e o desabamento da ponte reforça o quanto o relevo acidentado pode transformar qualquer projeto de infraestrutura em um jogo de alto risco.
O impacto também é logístico. A ponte integrava uma rodovia nacional que serpenteia pelas montanhas em direção ao Tibete, uma rota estratégica tanto para transporte quanto para desenvolvimento regional. Com o colapso, o governo precisou improvisar um desvio, enquanto admite que não há previsão para reabrir o trajeto original. Reconstruir ali não será simples: entre instabilidade geológica e clima imprevisível, qualquer cálculo de prazo tende a ser otimista demais.
Há ainda um contexto maior. Nas últimas décadas, a China investiu pesado em rodovias, linhas férreas e pontes gigantescas — algumas das maiores do mundo. Mas esse impulso deixou um rastro de desequilíbrios: regiões montanhosas receberam obras monumentais, enquanto governos locais acumularam dívidas igualmente monumentais. O colapso em Sichuan, mesmo sem vítimas, reacende o debate sobre até que ponto essa expansão acelerada é sustentável.
Por ora, o que resta na encosta é um amontoado de concreto quebrado, poeira e perguntas acumuladas. Para uma ponte tão nova, cair tão rápido não deveria fazer parte do projeto.
Crédito de imagem: CFOTO/Future Publishing via Getty Images
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