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Esqueça os supermercados: como a Holanda criou um "bairro do futuro" onde cultivar a própria comida virou regra

Experimento urbano na Holanda impõe produção agrícola obrigatória e transforma quintais em parte da infraestrutura da cidade

Mulheres colhendo legumes no quintal com criança. Créditos: shutterstock
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Cultivar verduras no quintal pode soar como um hábito rural, distante da lógica das grandes cidades. Mas, na Holanda, essa prática virou regra urbanística. No bairro de Oosterwold, localizado em Almere, a leste de Amsterdã, moradores são obrigados a destinar pelo menos 50% de seus terrenos à produção de alimentos

A exigência faz parte de um experimento urbano que combina moradia, autonomia arquitetônica e agricultura como condição formal de ocupação do solo. Hoje, cerca de 5 mil pessoas vivem em uma área de aproximadamente 4.300 hectares sob esse modelo, e a lista de espera de novos moradores não para de crescer. 

Bairro holandês obriga moradores a transformar quintais em plantação de alimentos

Oosterwold Em Oosterwold, moradores são obrigados a destinar pelo menos 50% de seus terrenos à produção de alimentos. Créditos: The Guardian

Já imaginou um bairro inteiro composto por casas cercadas com hortas, pomares e jardins produtivos? No lugar de muros altos e dos gramados tradicionais, o que aparece são fileiras de verduras, árvores frutíferas e pequenas estufas de cultivo. Em Oosterwold, na Holanda, funciona exatamente assim. 

O projeto foi concebido como alternativa ao modelo tradicional de planejamento urbano holandês, conhecido pela rigidez técnica e pela forte centralização estatal. Por isso, ao invés de ser um bairro desenhado pelo poder público ou por grandes incorporadoras, ele adotou uma lógica diferente, em que parte significativa das decisões passou para as mãos dos próprios moradores

Ali, eles participam da criação das ruas, planejam sistemas de drenagem, organizam a gestão de resíduos e colaboram na implantação de equipamentos coletivos. Ou seja, a autonomia é grande, mas vem acompanhada de uma exigência: metade de cada terreno do bairro precisa ser destinada à produção de alimentos obrigatoriamente.

Isso não significa que todos os terrenos precisam seguir exatamente o mesmo padrão. Cada morador pode decidir o que plantar, como plantar e a disposição do terreno. Por isso, a paisagem do bairro acaba sendo heterogênea. Há estufas, pomares, hortas, pequenas vinhas e até áreas destinadas à criação de animais. Em relação ao que é produzido, alguns moradores cultivam para consumo próprio, outros terceirizam o manejo e também há quem aproveite  a produção para transformar em atividade econômica.

Em reportagem do The Guardian, o morador Marco de Kat descreve uma rotina em que as refeições são definidas pelo que está pronto para colher. Já o restaurante Atelier Feddan, também citado pelo jornal, utiliza principalmente os ingredientes cultivados no próprio bairro nos pratos, criando um circuito alimentar curto e territorializado. Com isso, ao invés de depender exclusivamente de cadeias longas de abastecimento, parte do consumo passa a estar vinculada à realidade agrícola local

Sustentabilidade na prática: o que o experimento em Oosterwold mostra sobre cidades e alimentação

Em Oosterwold, a produção de alimentos não é complementar ao planejamento urbano, mas obrigatória. Cada morador precisa destinar pelo menos 50% do terreno ao cultivo, seja para consumo próprio, seja para abastecimento local. A regra transforma quintais em áreas produtivas e incorpora a agricultura como parte da infraestrutura do bairro.

Ou seja, a experiência realizada em Oosterwold não gira em torno de deixar o bairro bonito, mais verde e atrativo: ela mostra que  produzir comida deve fazer parte do planejamento da cidade. O objetivo é reduzir a dependência de grandes distribuidores de alimentos e fortalecer a capacidade de abastecimento da própria região.

O modelo também conversa diretamente com a crise climática. Isso porque o sistema alimentar global está entre os principais responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa, especialmente devido ao transporte de longa distância, ao armazenamento refrigerado e ao uso intensivo de insumos industriais. Ao estimular a produção próxima ao consumidor, Oosterwold encurta a cadeia de abastecimento e reduz a dependência de deslocamentos movidos a combustíveis fósseis

Além disso, o bairro incentiva práticas agrícolas que são adaptadas ao próprio território e adota diretrizes construtivas que priorizam estruturas duráveis, reaproveitamento de materiais e planejamento de longo prazo, diminuindo a pegada de carbono associada tanto à alimentação quanto à infraestrutura urbana. Oosterwold funciona, portanto, como uma espécie de laboratório que testa, na prática, quais escolhas construtivas e produtivas realmente reduzem o impacto ambiental ao longo do tempo.

Outro ponto desse modelo é a corresponsabilidade da comunidade. Manter metade do terreno produtivo exige tempo, conhecimento e investimento contínuo, e nem todos os moradores têm a mesma disponibilidade ou experiência agrícola. Assim, a coordenação comunitária acaba estimulando iniciativas locais de cooperação e apoio técnico entre os moradores.


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