Durante décadas, a Europa foi, sem discussão, a referência mundial na construção de cruzeiros, com quatro estaleiros de destaque na Itália, Alemanha, França e Finlândia. No entanto, por trás desses interiores de luxo, se escondem ambiciosas obras de engenharia. A China, que já era uma autoridade na construção de cargueiros e porta-contêineres, entrou timidamente no setor há três anos. Agora, avança em ritmo acelerado.
Na última sexta-feira (20/3), o Adora Flora City (em chinês, Aida Huacheng) saiu do dique seco em Xangai. Em poucas palavras: em seu cronograma, restam apenas as viagens de teste e a entrega final, embora já seja possível reservar passagens para seus primeiros cruzeiros no fim do ano, com saída de Guangzhou. Tudo está seguindo conforme o previsto — e em uma velocidade impressionante: foi montado em apenas nove meses.
Esse impressionante cruzeiro de luxo foi construído pela Shanghai Waigaoqiao Shipbuilding Co. no estaleiro da cidade, tendo Guangzhou Nansha como porto-base. Tem 341 metros de comprimento e 37,2 metros de largura e, em seu interior, há capacidade para 5.232 passageiros, distribuídos em 2.144 cabines. Seu design se inspira na Rota da Seda e na cultura Lingnan, com motivos florais por todo o navio em referência a Guangzhou. Não por acaso, Huacheng significa “Cidade das Flores”, apelido de Guangzhou.
Construir um cruzeiro é um dos projetos mais complexos da engenharia naval, o que explica sua raridade e a experiência acumulada dos tradicionais estaleiros europeus — com a chegada do Adora, a China demonstra tanto seu poder técnico quanto sua enorme capacidade de aprendizado.
De seu primeiro para o segundo cruzeiro, o país encurtou prazos de construção e reduziu sua dependência externa, com uma meta próxima de alcançar independência total. A ajuda do Ocidente acabou sendo uma arma de dois gumes (para o próprio Ocidente): contribuiu para criar um concorrente que, à luz do que já ocorreu em outros setores, pode transformar drasticamente a indústria naval.
Contexto
A Adora Cruises nasceu em 2015 como uma joint venture entre a CSSC e a Carnival Corporation, a maior operadora de cruzeiros do mundo. A China aportava estaleiros e mercado, enquanto a Carnival contribuía com sua experiência e a marca. Mas a pandemia atrapalhou os planos, a relação esfriou e a Carnival acabou se retirando completamente. Quando foi criada, o objetivo era que os navios fossem operados pela divisão asiática da Aida Cruises, subsidiária da Carnival (daí o nome Aida).
No início deste ano, a Adora se integrou a outros operadores estatais sob a marca China Cruises, em um movimento que, embora mantenha o nome reconhecível da Adora, busca otimizar seu desempenho operacional e consolidar sua presença no mercado nacional. Trata-se agora de um projeto inteiramente chinês.
O primeiro cruzeiro
O Adora Magic City (Aida Modu) foi o primeiro cruzeiro de grande porte fabricado integralmente na China. Entre suas especificações estão os 323 metros de comprimento e a capacidade para acomodar até 5.246 passageiros em seus 14 conveses e 2.125 cabines, com um estilo que combina elementos ocidentais e chineses. Nesse caso, a montagem do casco levou um pouco mais de tempo: 11 meses.
Mas, enquanto no Adora Magic City houve um apoio técnico intensivo do estaleiro italiano Fincantieri, no Flora City a engenharia chinesa já está quase independente. A construção e a coordenação da obra já são totalmente chinesas. A Fincantieri e a sociedade de classificação RINA continuam no projeto, fornecendo licenças, a plataforma de design e algumas partes, mas já não supervisionam.
Como reporta a agência de notícias Xinhua, na última sexta-feira o China Tourism Group e a CSSC assinaram um memorando de entendimento para a construção de um novo cruzeiro. A Shanghai Waigaoqiao Shipbuilding planeja acelerar a construção de uma base de montagem de cruzeiros e já tem em mente a data para entregar o primeiro cruzeiro de grande porte independente, ou seja, 100% chinês: em 2030. A ideia é abrir caminho para entrar na fase de produção em massa.
Imagens | Adora Cruises
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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