Algumas pessoas sentem irritação extrema ao ouvir sons aparentemente banais: alguém mastigando, estalando a língua, respirando alto ou batendo repetidamente em um objeto. Para quem sofre com isso, o incômodo pode surgir de forma imediata e intensa — às vezes acompanhado de ansiedade, raiva ou até vontade de fugir do ambiente. A ciência chama esse fenômeno de misofonia, ou Síndrome de Sensibilidade Seletiva do Som.
Embora muita gente se incomode com certos ruídos, na misofonia a reação é desproporcional. Segundo especialistas em otorrinolaringologia, esses sons podem desencadear respostas emocionais fortes, como irritabilidade profunda, fúria ou pânico, mesmo quando são relativamente baixos ou comuns no cotidiano.
Curiosamente, quem tem misofonia costuma apresentar audição normal. Exames como audiometria geralmente não mostram alterações, o que indica que o problema não está apenas no ouvido, mas provavelmente na forma como o cérebro processa determinados estímulos sonoros.
Quando mastigar vira um gatilho
Um dos gatilhos mais comuns da misofonia são sons repetitivos produzidos por outras pessoas, especialmente durante refeições: mastigação, estalos da boca ou o som da saliva. Pesquisas sugerem que esses ruídos podem ativar áreas cerebrais ligadas às emoções e ao sistema de alerta, gerando uma resposta automática de irritação.
Estudos de neuroimagem realizados em universidades como Newcastle e Amsterdam indicam que pessoas com misofonia apresentam atividade incomum na ínsula anterior, região do cérebro associada à percepção emocional e à avaliação de estímulos sensoriais. Essa hiperatividade pode explicar por que certos sons parecem impossíveis de ignorar.
Outro fator importante é a repetição do som. Diferente da hiperacusia — condição em que volumes altos causam desconforto — a misofonia costuma envolver ruídos pequenos, mas repetitivos. Um simples tic-tac de relógio ou o barulho constante de alguém digitando pode ser suficiente para desencadear irritação.
Especialistas também observam que a misofonia frequentemente aparece junto de outras condições, como ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) ou autismo.
O tratamento geralmente envolve uma abordagem multidisciplinar. Terapia cognitivo-comportamental, acompanhamento psicológico e estratégias para reduzir estímulos sonoros no ambiente podem ajudar a diminuir a intensidade das reações e melhorar a qualidade de vida de quem convive com a condição.
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