“Hunter-Killers. Máquinas de patrulha. Construídas em fábricas automatizadas.” A frase é dita por Kyle Reese em O Exterminador do Futuro quando tenta explicar um futuro dominado pela Skynet e suas máquinas de guerra. Quarenta anos depois, não chegamos ainda a esse pesadelo de ficção científica, mas a conexão é poderosa demais para ser ignorada: a China está fabricando componentes estruturais para caças furtivos em uma fábrica altamente automatizada, quase sem humanos na linha de produção e com máquinas capazes de trabalhar durante boa parte do dia.
A notícia chega por meio do Science and Technology Daily. Segundo essa fonte, a fábrica mais do que dobrou a eficiência na produção de componentes estruturais para caças furtivos chineses, entre eles o avião Chengdu J-20.
O processo, que antes exigia funcionários monitorando operações durante todo o dia, agora se apoia em veículos autônomos, maquinário automatizado guiado por IA e sistemas capazes de manter a atividade por quase 24 horas. Ainda assim, não estamos falando de aviões completos saindo sozinhos de um galpão, mas sim da fabricação do “esqueleto” da aeronave em condições de intervenção humana muito reduzida.
O que é uma fábrica escura
“Fábricas escuras” são instalações projetadas para operar com pouquíssima presença humana, a ponto de a iluminação deixar de ser uma condição necessária para produzir. A Siemens descreve essas fábricas como instalações com atividade humana mínima, capazes de funcionar no escuro. Podemos ver essa ideia aplicada a diversos setores: aço, celulares, motores domésticos e peças de dispositivos de ignição para foguetes.
A fábrica combina transporte autônomo de materiais, usinagem de alta precisão, escaneamento inteligente e inspeção robotizada. Antes, porém, eram necessários dois ou três funcionários por turno para manter o maquinário funcionando o dia todo — agora, as horas de trabalho humano necessárias para operar a planta foram reduzidas em mais de 80%.
O salto não dependeu apenas da instalação de mais robôs. Segundo explicou Song Ge ao Science and Technology Daily, as dezenas de máquinas da fábrica utilizavam protocolos e linguagens de software diferentes, uma fragmentação que dificultava unificar a linha e controlá-la como um sistema único. A solução passou por fazer com que os equipamentos conseguissem se comunicar, ser controlados à distância e se coordenar dentro do mesmo fluxo de produção.
O Chengdu J-20 ocupa um lugar central na modernização aérea chinesa. O Ministério da Defesa da China confirmou em 2018 sua entrada em serviço de combate e o apresentou como um caça com capacidade para disputar a superioridade aérea, realizar ataques de precisão contra alvos terrestres e marítimos, fazer interferência eletrônica e organizar comando tático.
Um velho sonho com maquinário novo. A ideia de fabricar quase sem humanos não nasceu com a China nem com o Chengdu J-20. A CNN já afirmava em 2003 que esse sonho vinha dos anos 1980, quando a General Motors imaginava robôs tão confiáveis que poderiam montar transmissões no escuro. Aquilo esbarrou em uma realidade muito mais desajeitada: as máquinas não funcionavam bem nem com as luzes acesas.
Hoje, o cenário é mais amplo: a FANUC opera no Japão uma fábrica no escuro desde 2001, a Makuta Micro Molding aplica esse modelo nos EUA na moldagem por microinjeção e a Philips produz barbeadores elétricos nos Países Baixos com uma unidade altamente automatizada apoiada em centenas de robôs.
O futuro industrial não precisa se parecer com a Skynet, mas aponta para fábricas nas quais a presença humana pesa menos em determinadas etapas da produção. E, quando isso acontece, manter as luzes acesas durante toda a operação deixa de ser uma necessidade produtiva e passa a depender de quando as pessoas entram na planta.
Imagens | Ministério da Defesa da China
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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