O Irã não é a Venezuela: se os EUA realmente invadirem o país, encontrarão um cenário completamente diferente

Estadunidenses irão encontrar um ambiente saturado de mísseis, interferências e possíveis represálias regionais

EUA invadir Irã / Imagem: Airbus, Planet Labs
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Nas últimas semanas, os EUA concentraram centenas de aeronaves e ativos de apoio em torno do Oriente Médio, enquanto satélites comerciais têm captado movimentos incomuns ao redor da capital iraniana. Essa combinação de deslocamentos e reposicionamentos elevou a tensão e obrigou a reavaliar os cálculos sobre as consequências de um confronto direto.

Como lembra o The New York Times, quando Donald Trump comparou uma eventual ofensiva contra o Irã à operação-relâmpago que permitiu capturar Nicolás Maduro em Caracas, ele sugeriu a ideia de uma ação rápida, cirúrgica e decisiva. O problema é que o paralelismo é bastante enganoso desde sua base estratégica.

A Venezuela oferecia um espaço aéreo envelhecido e fracamente defendido, além de um alvo político acessível, enquanto Teerã é sustentada por uma estrutura teocrática consolidada ao longo de quase meio século por uma Guarda Revolucionária com cerca de 150 mil efetivos e por uma rede regional de milícias capazes de abrir múltiplas frentes. Não há como realizar uma operação “limpa” no Irã e nem de baixo custo, e qualquer tentativa de decapitação do regime implicaria em uma campanha prolongada, com risco real de baixas estadunidenses e de escalada regional. E não apenas isso.

As imagens de satélite

As últimas imagens comerciais obtidas do espaço por meio da Airbus e da Planet Labs mostraram algo que altera o cálculo: a realocação de sistemas S-300 de longo alcance ao redor de Teerã e Isfahan, acompanhados pelo sistema de guerra eletrônica Cobra-V8 em posições-chave ao sul da capital.

Esse binômio combina interceptadores capazes de atingir alvos a centenas de quilômetros com potentes capacidades de interferência em faixas críticas para radares, enlaces via satélite e pods de designação, o que atinge diretamente a “kill chain” estadunidense antes mesmo de os mísseis entrarem em sua zona de alcance. O recado é claro: o Irã não apenas quer e pode disparar, mas também deseja cegar, degradar e forçar os atacantes a operar mais perto e com maior exposição.

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O S-300PMU-2, com mísseis de alta velocidade e radares tridimensionais otimizados para detectar alvos em baixa altitude, como drones e mísseis de cruzeiro, constitui a camada mais robusta do sistema iraniano, enquanto o sistema Cobra-V8 busca corroer e desgastar a vantagem sensorial de plataformas estadunidenses como os AWACS ou até mesmo aeronaves de supressão eletrônica.

Embora existam dúvidas sobre a integração total desses sistemas e sobre a ausência de caças avançados que atuem como sensores elevados, sua implantação próxima à capital sugere uma arquitetura pensada para sobreviver à primeira onda de ataques e obrigar Washington a destinar recursos adicionais à supressão e à guerra eletrônica. Em outras palavras, já não se trata apenas de lançar bombas, mas de vencer uma batalha prévia no espectro eletromagnético.

Mísseis e múltiplas frentes

A esse blindagem defensiva, soma-se um dos arsenais de mísseis mais amplos do Oriente Médio, com sistemas de alcance médio capazes de atingir bases estadunidenses e cidades aliadas a mais de 2.000 quilômetros, além de drones, armas antinavio e testes recentes de defesa aérea a partir do mar no estreito de Ormuz.

De fato, é totalmente plausível que o Irã possa escalar rapidamente por meio do chamado “eixo da resistência”, ativando o Hezbollah, os houthis e milícias iraquianas para dispersar o custo e ampliar o teatro do conflito. Tudo isso, naturalmente, enquanto ameaça uma rota por onde transita cerca de um quinto do petróleo e do gás mundial. A lógica, portanto, é dissuasória: qualquer ataque contra Teerã teria repercussão imediata em Israel, no Golfo e no comércio energético global.

O resultado dessa equação é que a comparação com Caracas se esvazia diante de um cenário em que a capital iraniana se transformou em um espaço fortemente defendido e disputado no espectro eletromagnético. As imagens de satélite não mostram um país desarmado, mas sim um que reforçou seu núcleo estratégico já antecipando uma campanha moderna de supressão aérea.

Em suma, se os EUA atacarem como fizeram na Venezuela, não enfrentarão um vazio operacional, mas sim um ambiente saturado de mísseis, interferências e possíveis represálias regionais — um confronto em grande escala que ameaça se transformar, desde o primeiro dia, em um combate com baixas em ambas as direções.

Imagem | Airbus, Planet Labs

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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