Em 2011, cientistas observaram uma mudança inesperada no fluxo do ferro e do níquel fundidos que compõem o núcleo externo da Terra. Embora o fluxo de sua superfície normalmente se mova para o oeste, foi detectado que ele estava se deslocando justamente para o leste. Era algo totalmente incomum e misterioso. A partir dessa observação, foi iniciado um estudo cujos resultados foram publicados recentemente. Embora o objetivo fosse descobrir os motivos, no final sobraram poucas certezas e ainda muitas dúvidas.
Neste estudo, foram analisados retrospectivamente 27 anos do comportamento do núcleo terrestre, entre 1997 e 2025. Embora o núcleo não possa ser observado diretamente, sabe-se que seu comportamento influencia o do campo magnético terrestre. Por isso, as flutuações em um podem ser detectadas no outro por meio de observações via satélite.
Foi constatado que, embora o núcleo externo da Terra normalmente se mova para o oeste, houve uma parte dele que passou de um fluxo fraco em direção ao oeste, em 2010, para um fluxo muito mais forte em direção ao leste, em 2012. Ele permaneceu assim até 2020 e agora parece estar começando a enfraquecer novamente.
Três opções
Quando essa mudança de movimento foi detectada em 2011, pensou-se que ela poderia ser causada por três motivos. Por um lado, poderia se tratar de uma flutuação pontual. Por outro, seria possível que fizesse parte de uma oscilação periódica. E, por fim, poderia ser uma forma de estabelecer um equilíbrio na circulação do núcleo.
O único aspecto que constatamos até agora nas observações via satélite é que a mudança foi progressiva. A alteração de comportamento começou em 2010 e já era muito clara em 2012. Em 2011, quando foi observada, estava em plena transição.
Ao analisar os dados desse período, constatou-se que, coincidindo com essa mudança de direção, também houve alguns sinais sísmicos compatíveis com as datas. Inclusive foram detectados balanços geomagnéticos que correspondem a uma atividade turbulenta no núcleo terrestre.
Essa mudança de direção não ocorreu em todo o núcleo. Para começar, o núcleo terrestre é composto por duas partes: a interna e a externa. A interna está submetida a tanta pressão que os metais permanecem em estado sólido apesar das altas temperaturas. Já na parte externa, eles se encontram em estado líquido e, portanto, em movimento. Ainda assim, não foi todo o núcleo externo que mudou de movimento. Isso corresponde a uma região específica, localizada sob o oceano Pacífico.
Poderia ser um redemoinho, mas esses cientistas concluíram que não, pois o movimento faz parte de uma estrutura maior e ondulada. Algo como se uma seção inteira dessa parte do núcleo começasse de repente a se mover na direção oposta ao esperado.
Por que isso é importante
O movimento do metal fundido do núcleo gera correntes elétricas que, por sua vez, dão origem a um campo geomagnético que se estende até o espaço. Por isso, graças ao movimento do núcleo terrestre, temos todo um escudo magnético ao redor da Terra que protege nossa atmosfera da erosão causada pelas partículas provenientes dos ventos solares. O fato de esse núcleo mudar seu movimento não é perigoso. Não vamos ficar sem atmosfera, pois o núcleo continua lá.
No entanto, entender suas flutuações pode nos ajudar também a compreender as flutuações do campo magnético. Ele não apenas protege a atmosfera da erosão, mas também ajuda a manter afastada boa parte das partículas que poderiam afetar nossos sistemas de telecomunicações.
Por isso, entender como esse escudo funciona pode nos ajudar a prevenir aqueles eventos mais extremos que, de fato, chegam a causar danos tecnológicos. Essa é a razão pela qual, embora este estudo tenha nos fornecido muitos dados interessantes, ele ainda não é suficiente. É preciso continuar monitorando o núcleo terrestre para descobrir a que se deveu essa anomalia de 2011.
Imagem | ESA
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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