Durante décadas, a Coreia do Norte foi vista como um dos países mais isolados planeta. No entanto, uma investigação publicada pelo The New York Times, baseada em documentos vazados, relatos de desertores e análise de informações do próprio regime, aponta que o governo de Kim Jong-un conseguiu transformar um dos períodos mais difíceis de sua história recente em uma oportunidade para consolidar poder.
Segundo a reportagem, a pandemia, a guerra na Ucrânia e a reorganização das alianças internacionais permitiram que a Coreia do Norte reduzisse sua dependência da China e fortalecesse sua parceria com a Rússia.
Covid-19 levou Kim Jong-un a pedir desculpas à população
Em 2020, no auge da pandemia de Covid-19, Kim Jong-un protagonizou uma cena incomum para os padrões norte-coreanos. O líder fez um pedido público de desculpas à população.
A declaração chamou atenção porque a propaganda estatal tradicionalmente apresenta o líder como uma figura praticamente infalível.
Na ocasião, afirmou que seus esforços não haviam sido suficientes para aliviar as dificuldades enfrentadas pelo povo. Especialistas e desertores relataram que grande parte da população enfrentava um período de extrema dificuldade econômica.
Naquele momento, a Coreia do Norte enfrentava uma combinação de fatores críticos, como fechamento das fronteiras, escassez de alimentos e redução do comércio com a China.
Pandemia também fortaleceu o controle do regime norte-coreano
Embora a crise tenha afetado a economia, ela também permitiu que Kim Jong-un aumentasse o controle sobre a sociedade.
Segundo a investigação, o governo praticamente fechou a fronteira com a China, combateu o contrabando e intensificou a repressão contra mercados paralelos, que durante anos serviram como fonte de renda para milhares de famílias.
Também foram ampliadas as punições para quem consumisse conteúdos estrangeiros considerados "antissocialistas", incluindo filmes, séries e músicas contrabandeadas.
Para os analistas, essas medidas reduziram a influência externa e fortaleceram o poder do Estado sobre a população.
Guerra na Ucrânia alterou as relações governamentais
O grande ponto de virada, segundo a reportagem, ocorreu após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022. A necessidade russa de munições e equipamentos militares abriu uma nova oportunidade econômica para Pyongyang.
De acordo com a investigação, a Coreia do Norte passou a fornecer armamentos e apoio logístico à Rússia, enquanto recebia em troca recursos considerados estratégicos, como alimento e petróleo, além de tecnologia militar e cooperação econômica.
As duas nações também aprofundaram sua aproximação política e militar, reduzindo o impacto das sanções internacionais que durante anos limitaram a capacidade de crescimento do regime norte-coreano.
China voltou a se aproximar de Kim Jong-un
Historicamente, a China sempre foi o principal parceiro econômico da Coreia do Norte. Apesar disso, o fortalecimento dos laços entre Pyongyang e Moscou alterou parte desse equilíbrio.
Segundo a análise publicada pelo New York Times, a visita do presidente chinês Xi Jinping e os sinais de maior cooperação entre os dois governos podem ser interpretados como uma tentativa de Pequim de preservar sua influência sobre um aliado estratégico na região.
Para especialistas, a China busca evitar que a Coreia do Norte fique excessivamente dependente da Rússia, especialmente em um cenário de crescente rivalidade geopolítica com os Estados Unidos.
Mudanças econômicas dentro da Coreia do Norte
Apesar das dificuldades enfrentadas pela maior parte da população, relatos recentes indicam algumas transformações na infraestrutura do país.
Nos últimos anos, o governo concluiu projetos de desenvolvimento urbano e turístico, incluindo:
- Novos conjuntos habitacionais;
- Estações de esqui;
- Resorts termais;
- Cidades costeiras planejadas.
Também surgiram relatos sobre maior circulação de veículos particulares, expansão de postos de combustíveis e até aplicativos para compras e serviços de entrega em Pyongyang.
Especialistas ressaltam, porém, que essas melhorias estão concentradas principalmente na capital e em áreas prioritárias para o regime.
Foto de capa: KCNA via REUTERS
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