IA causou colapso até de setor não relacionado: o de turbinas a gás

Conceito de "traga sua própria energia" é novo ouro da indústria: turbinas a gás convencionais já têm  lista de espera até a próxima década

De ex-executivos da Tesla a pioneiros da fusão nuclear: Gigascale ignora "virtude climática" e financia pesos-pesados ​​do hardware extremo

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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Enquanto todos fogem, o ex-diretor de tecnologia da Meta permanece. Enquanto a maioria dos investidores do Vale do Silício abandonou a tese da tecnologia climática — cansados ​​de promessas que não se traduzem em negócios reais — Mike Schroepfer acaba de anunciar que captou US$ 250 milhões para fazer exatamente o oposto. Seu fundo, Gigascale Capital, concluiu a primeira rodada de financiamento com investidores institucionais para apoiar fundadores que, em suas próprias palavras, estão "reconstruindo a economia física".

A notícia surge num momento em que o setor de tecnologia climática enfrenta uma reputação complexa. Como explica o TechCrunch, o rótulo "Tecnologia Climática" está em descrédito. Schroepfer, conhecido no setor simplesmente como Schrep, está desafiando o consenso do mercado.

A aposta faz sentido?

Primeiramente, precisamos entender o problema subjacente: as turbinas a gás, o sistema de geração de eletricidade mais convencional, têm atualmente uma lista de espera que se estende até o início da década de 2030. Não se trata de falta de tecnologia verde, é simplesmente  falta de energia, e as empresas que tentam se conectar à rede elétrica estão encontrando cada vez mais dificuldades.

O culpado

A questão é: o que acelerou a demanda a esse ponto? Inteligência artificial.

O setor passou por uma mudança estrutural nos últimos anos, impulsionada justamente pelas demandas energéticas da IA. Os data centers consomem quantidades enormes de eletricidade, e as redes não conseguem acompanhar. Diante dessa situação, muitas empresas estão tentando gerar sua própria eletricidade. Como o próprio Schroepfer apontou, o modelo "traga sua própria energia" (Bring Your Own Power - BOP) se tornará uma vantagem competitiva decisiva em indústrias de alto consumo energético.

Mas também não há caminho fácil: até mesmo as turbinas tradicionais têm listas de espera. Como detalha o Pulse 2.0, a eletrificação acelerada, a realocação industrial, a implementação da IA ​​e eventos climáticos cada vez mais extremos estão pressionando simultaneamente infraestruturas físicas que vêm envelhecendo há décadas.

Negócio da escassez

A empresa Gigascale foi fundada em 2023 por Schroepfer, juntamente com Victoria Beasley e Evaline Tsai. O fundo surgiu de um processo que o ex-executivo da Meta descreve como um estudo sistemático do setor climático durante a pandemia. Em três anos, construiu um portfólio com mais de 25 empresas em áreas que vão desde energia limpa e infraestrutura de redes elétricas até minerais críticos, manufatura avançada e o que chamam de "IA física": aplicações de inteligência artificial para projetar, fabricar e implantar sistemas no mundo real.

A lógica de investimento de Schroepfer não gira em torno da virtude ambiental, mas sim da competitividade. Seu argumento é o seguinte: a energia solar passou de produzir 40 gigawatts por ano para 600 em uma década porque se tornou mais barata. "As empresas que apoiamos vencem porque são mais baratas, mais rápidas e mais confiáveis. É assim que a adoção se expande. O impacto climático é resultado de sistemas que funcionam melhor", afirmou ele em um comunicado à imprensa.

Quando a lista de espera é a oportunidade

O portfólio do fundo já inclui nomes específicos que ilustram essa filosofia:

  • Nova geração de energia: a Commonwealth Fusion Systems e a Xcimer Energy (que alcançou o primeiro flash de seu sistema de laser comercial no final de 2025) estão trabalhando para tornar a fusão nuclear uma realidade. Enquanto isso, a Radiant está caminhando para uma das primeiras implantações comerciais de microrreatores nucleares nos Estados Unidos.
  • Infraestrutura de IA: a Arbor Energy firmou um acordo com a GridMarket para fornecer até 5 gigawatts de energia limpa e com zero emissões para data centers. Paralelamente, a Fractile anunciou uma expansão de US$ 136 milhões para fabricar processadores de IA projetados especificamente para reduzir o consumo de eletricidade.
  • Economia circular e indústria: a Heron Power, fundada por Drew Baglino — ex-vice-presidente de propulsão e energia da Tesla — desenvolve eletrônica de potência industrial. Além disso, empresas como a Dioxycle firmaram contratos plurianuais com gigantes como a L'Oréal para converter as emissões de CO₂ capturadas em etileno para a fabricação de embalagens.

Ironia subjacente

O mundo debate há anos como descarbonizar por razões ambientais. E acontece que o catalisador que torna a transformação do sistema energético urgente e inevitável não é nenhuma cúpula climática: é a Inteligência Artificial. Embora os investidores evitem o rótulo "Tecnologia Climática", considerando-o muito ideológico ou pouco lucrativo, a demanda por energia é tão grande que nem mesmo as turbinas a gás mais convencionais conseguem suprir a necessidade. A oportunidade existe justamente porque o problema é real. E Schroepfer, que vem da construção dos sistemas que consomem essa energia, entende isso perfeitamente.

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