Na China, um copo de água com gelo na mesa é quase uma raridade. Em vez disso, você encontrará um bule de chá verde, uma tigela de caldo: nada frio. Durante séculos, em grande parte da Ásia, beber líquidos frios durante as refeições foi uma excentricidade mais típica do Ocidente do que da própria região. O que por muito tempo pareceu um costume pitoresco, ou simplesmente uma questão de infraestrutura — gelo nem sempre estava disponível em todos os lugares — na verdade tem uma explicação fisiológica bastante sólida.
A temperatura da água que bebemos enquanto comemos não é um detalhe insignificante. Ela afeta os movimentos estomacais, a velocidade com que o estômago se esvazia e o funcionamento dos músculos do sistema digestivo. E a ciência, embora com nuances importantes, está começando a validar o que milhões de pessoas na Ásia praticam há milênios.
Antes de nos aprofundarmos na fisiologia, é importante entender como esse debate chegou ao Ocidente. Não chegou por meio de uma conferência médica ou de um periódico científico. Chegou, como tantas outras coisas, pelo TikTok.
O fenômeno é conhecido como Chinamaxxing ou "Tornando-se Chinês": uma tendência viral na qual milhares de ocidentais adotam hábitos de vida da cultura chinesa, incluindo o consumo de água quente. Segundo o The New York Times, a água quente se tornou "a nova estrela do bem-estar online", com influenciadores documentando como esse hábito reduz o inchaço, energiza e melhora a digestão.
Mas o que a internet apresenta como uma descoberta revolucionária não é nada novo. Essa prática está enraizada há milhares de anos na Ayurveda indiana — onde o ritual matinal de beber água quente é conhecido como usha paana — e na Medicina Tradicional Chinesa, onde se acredita que o frio "extingue o agni", o fogo digestivo, e enfraquece a energia vital ou Qi, forçando o corpo a gastar energia extra para aquecer o estômago. A água quente, por outro lado, equilibra o Yin e o Yang e mantém o corpo calmo.
O fato de algo fazer parte de uma tradição antiga não o torna automaticamente uma verdade científica, é claro, mas também não o desqualifica. A questão é: o que exatamente a ciência diz quando analisa o que acontece no estômago dependendo da temperatura do que bebemos?
O que realmente acontece no estômago?
Para entender o debate, precisamos separar duas coisas que são frequentemente confundidas: o efeito de beber água durante as refeições e o efeito da temperatura da água. São questões diferentes com respostas diferentes.
Por um lado, em relação à água em si, existe uma crença generalizada de que beber água durante as refeições dilui os sucos gástricos e as enzimas digestivas, retardando a digestão. Sites médicos como o Healthline explicam que não há evidências científicas sólidas de que a água dilua os sucos gástricos ou prejudique significativamente a digestão. O estômago possui um sistema regulador dinâmico que detecta mudanças no pH e secreta automaticamente mais ácido clorídrico para compensar. Beber um copo de água durante uma refeição praticamente não altera esse equilíbrio.
Marina Domene, chefe de nutrição da SHA Espanha, esclarece na Vogue onde reside o verdadeiro limite: o problema não é beber água em si, mas sim o excesso. "O que não é recomendado é beber em excesso, mais de dois ou três copos grandes, pois isso pode distender demais o estômago e diluir temporariamente as enzimas", explica ela. Ela também ressalta que existem contextos específicos em que é aconselhável ter mais cuidado: em pessoas que sofrem de hipocloridria — baixa produção de ácido estomacal — o consumo de líquidos durante as refeições não é recomendado.
Por outro lado, o cenário muda em relação à temperatura, e é aqui que a fisiologia começa a dar razão à Ásia. A temperatura dos líquidos afeta diretamente a motilidade gástrica, ou seja, os movimentos musculares do estômago que impulsionam a digestão. Domene explica claramente: "Bebidas frias podem retardar ligeiramente o esvaziamento gástrico e contrair os vasos sanguíneos do estômago, o que pode ser desconfortável para pessoas sensíveis. Líquidos mornos, como caldos ou infusões, têm um efeito relaxante sobre a musculatura lisa do estômago."
Esta não é apenas uma opinião clínica. Existem estudos que a comprovam, como pesquisas sobre o efeito da temperatura no esvaziamento gástrico. Estudos observaram que bebidas muito frias, em torno de 2 a 5 °C, podem retardar temporariamente a fase inicial do esvaziamento gástrico em comparação com líquidos à temperatura corporal. Bebidas a 4 °C também alteram as contrações antrais e pilóricas, retendo brevemente o conteúdo estomacal. Um experimento com 11 jovens que consumiram 500 ml de água em diferentes temperaturas descobriu que a água a 2 °C reduziu a frequência das contrações gástricas em comparação com a água a 60 °C, e essa redução da atividade muscular foi associada a uma menor ingestão calórica subsequente. Vale ressaltar que o tamanho das amostras desses estudos é modesto, mas seus resultados apontam consistentemente na mesma direção.
Um estudo publicado na revista Gastroenterology Nursing, com foco em pacientes que haviam sido submetidos recentemente a cirurgia de cólon, observou que beber água morna teve um impacto positivo nas evacuações subsequentes. Um estudo realizado com pessoas saudáveis, mas que adiciona evidências sobre o papel da temperatura na motilidade intestinal. A gastroenterologista Dra. Lisa Ganjhu, consultada pelo The New York Times, descreve isso de forma mais gráfica: à noite, o sistema digestivo desacelera. A água quente gera ondas de contração e relaxamento nos músculos do esôfago, estômago e intestinos. "Basicamente, ela diz a todos: 'Ok, levantem-se'." "Precisamos nos mexer", explica ela.
Por que esse caminho?
A explicação fisiológica que a ciência oferece hoje se conecta muito bem com o que a Medicina Tradicional Chinesa e o Ayurveda vêm dizendo há séculos, embora em línguas completamente diferentes.
Na China, no Japão e em grande parte do Sudeste Asiático, é comum acompanhar as refeições com chá ou sopa quente. Isso não é uma moda passageira ou uma tendência recente: faz parte da estrutura da refeição. O caldo não encerra a refeição; ele a acompanha desde o início. O chá está presente durante toda a refeição. A temperatura quente não é acidental: é a norma.
Pasu Harisadee, educadora em Medicina Tradicional Chinesa, destaca que a água pura é a base mais neutra e a mais recomendada para a maioria das pessoas. Embora sejam permitidos alguns acréscimos: um pouco de gengibre fresco fortalece o sistema imunológico e combate a náusea; o mel acalma a garganta; o limão fornece vitamina C. Mas a base continua sendo a água — não processada, sem gás e sem gelo.
Na Medicina Tradicional Chinesa, a lógica interna é consistente: o corpo está a 37°C. Introduzir algo muito frio cria estresse térmico ao qual o corpo precisa responder gastando energia. Líquidos à temperatura corporal ou acima dela permitem que o sistema digestivo funcione sem esse esforço extra. A fisiologia ocidental não utiliza os conceitos de Qi ou Agni, mas a consequência prática que descreve — que o frio interfere na motilidade gástrica — é essencialmente a mesma.
Um conselho que reaparece em diversas fontes, e que possui respaldo científico, é beber água antes das refeições, em vez de durante elas. Domene explica: hidratar-se bem 20 ou 15 minutos antes de sentar para comer lubrifica o esôfago, facilita a quebra dos alimentos e melhora a digestão. Também reduz a sensação de fome durante as refeições.
O Dr. Shmerling, da Faculdade de Medicina de Harvard, reconhece que beber água antes das refeições pode gerar uma leve sensação de saciedade ao ativar os mecanorreceptores do estômago, embora alerte que o efeito é limitado e temporário. Há evidências de que, em uma dieta de baixa caloria, aqueles que bebem água antes das refeições podem perder mais peso em doze semanas do que aqueles que não consomem; no entanto, não há evidências robustas de efeitos a longo prazo em grandes populações. A conclusão prática é mais modesta do que o título sugere, mas existe.
Se você sentir a boca seca durante uma refeição, a solução também não é beber um copo de uma só vez: Domene recomenda tomar pequenos goles de água morna ou chá de ervas apenas para umedecer o paladar. A diferença entre um gole e um copo pode parecer pequena, mas fisiologicamente não é.
O limite que ninguém deve ultrapassar
Há um ponto em que a recomendação de beber bebidas quentes se torna um risco real, e é importante deixar isso claro. Consumir regularmente bebidas acima de A temperatura de 65°C está associada a um risco aumentado de câncer de esôfago, de acordo com a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), além de danificar os tecidos da boca e queimar as papilas gustativas. A temperatura ideal é morna ou agradavelmente quente, nunca escaldante. A nutricionista Helen Ruckledge resume bem a questão: "Se você optar por água quente, ferva-a e deixe esfriar em vez de bebê-la diretamente da torneira."
O paradoxo do verão também merece ser mencionado. Em ambientes extremamente quentes, beber água quente ativa a transpiração, que é o mecanismo do corpo para dissipar o calor. Funciona bem quando a umidade é baixa, porque o suor evapora. Mas em ambientes com alta umidade, o suor não evapora e o efeito é o oposto: você simplesmente sente mais calor.
Em última análise, o que este debate traz à tona é algo mais amplo do que apenas a temperatura da água. Trata-se da questão de quanto tempo temos ignorado práticas com lógica interna sólida simplesmente porque elas não se encaixavam em nossa compreensão da alimentação.
O copo de água gelada com a refeição é uma convenção cultural, não uma necessidade fisiológica. Na maior parte do mundo, durante a maior parte da história, isso não existia. Na Ásia, chá quente ou caldo com a refeição não é um acréscimo exótico: faz parte da estrutura digestiva da alimentação.
Numa era em que o bem-estar foi comercializado ao extremo — com suplementos, detox, jejum intermitente e smoothies prometendo transformações em 30 dias — descobriu-se que uma das intervenções mais apoiadas pela fisiologia digestiva é gratuita, simples e conhecida há séculos: trocar água gelada por chá ou caldo quente durante as refeições.
Não é uma cura milagrosa. Não vai resolver problemas digestivos causados por uma alimentação inadequada. Mas se a motilidade gástrica funciona melhor com líquidos à temperatura corporal, se os músculos do estômago relaxam com o calor e contraem com o frio, e se culturas com taxas historicamente mais baixas de problemas digestivos vêm fazendo exatamente isso há milênios, talvez seja hora de levar isso a sério.
O bule de chá está na mesa há séculos. Só faltava a ciência se juntar a ele.
Imagem | Unsplash
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