Tendências do dia

EUA estão convencidos de que a China está realizando testes nucleares; o problema é que não conseguem provar

As suspeitas se baseiam em imagens de satélite e análises de inteligência

EUA acusam China de testes nucleares / Imagem: CCTV
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator

Victor Bianchin é jornalista.

1645 publicaciones de Victor Bianchin

Durante a Guerra Fria, Washington e Moscou mantinham uma regra não escrita: se fosse realizado um teste nuclear, o mundo precisava ficar sabendo. Tanto quanto experimentos militares, as explosões eram também sinais políticos, projetadas para serem vistas, medidas e temidas. Por isso, falar de detonações tão pequenas que mal deixam vestígios sísmicos e de testes pensados para não serem detectados gera grande inquietação.

Os EUA acabam de acusar a China exatamente disso.

Ocorreu na última sexta-feira, quando os EUA denunciaram a China por ter realizado ao menos um teste nuclear com rendimento explosivo em 2020 e por estar se preparando para outros de baixa potência, uma denúncia formulada em Genebra por meio do subsecretário Thomas DiNanno justamente quando se desmorona o marco clássico de controle de armamentos após a expiração do New START.

Segundo Washington, Pequim teria recorrido a técnicas de desacoplamento para amortecer os sinais sísmicos e ocultar detonações subterrâneas. É uma acusação de enorme peso político porque rompe a ambiguidade anterior e aponta, pela primeira vez, uma data concreta: 22 de junho de 2020. E isso em pleno debate sobre se os EUA devem recuperar a opção de voltar a testar armas nucleares.

O pano de fundo técnico e legal é fundamental para entender a controvérsia, já que tanto a China quanto os EUA assinaram, mas não ratificaram, o Tratado de Proibição Completa dos Testes Nucleares, o que permite ensaios subcríticos sem reação nuclear autossustentada, mas proíbe qualquer explosão com rendimento mensurável.

Washington sustenta que Pequim teria cruzado essa linha com testes de baixíssima potência, difíceis de detectar, enquanto o órgão responsável pela verificação, a Organização do Tratado de Proibição Completa dos Testes Nucleares, garante que sua rede não detectou nenhum evento compatível com uma explosão nuclear naquele dia, ressaltando assim a fragilidade de um sistema de controle que nunca chegou a entrar plenamente em vigor.

Lop Nur, satélites e expansão silenciosa

As suspeitas estadunidenses também se baseiam em imagens de satélite e análises de inteligência que apontam para uma intensa atividade no histórico polígono de Lop Nur, com novas escavações, túneis e perfurações que poderiam servir tanto para testes subcríticos quanto para detonações de maior rendimento.

Esse movimento se encaixa na rápida expansão do arsenal chinês, que já ultrapassaria as 600 ogivas nucleares e poderia alcançar a marca de mil antes de 2030, reforçando a percepção em Washington de que o verdadeiro desafio estratégico já não é Moscou, mas sim uma Pequim com capacidade e vontade de disputar a primazia militar dos EUA.

A denúncia de Washington chega acompanhada de uma mensagem política clara: sem limites vinculantes, transparência nem mecanismos de verificação que incluam a China, o sistema herdado da Guerra Fria já não serve mais. Os EUA acreditam que estão no direito de adotar “passos paralelos”, incluindo a retomada de testes, caso considerem que outros atores estão quebrando as regras.

Pequim rejeita energicamente as acusações, reafirma sua moratória e sua doutrina de não primeiro uso, mas o simples choque verbal evidencia uma mudança de fase. Nesse novo contexto, é possível que o fim do New START e a desconfiança mútua abram a porta para uma nova corrida nuclear na qual explosões pequenas, quase invisíveis, podem ter consequências estratégicas enormes.

Imagem | CCTV

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


Inicio