Todo adulto que gosta de jogar futebol já sonhou em se tornar um atleta profissional. O processo é duro e, além de habilidade, depende de ter a sorte de jogar bem na frente dos olheiros: profissionais que assistem jogos de times escolares ou até mesmo de rua para pinçar talentos brutos que podem se tornar profissionais no futuro. Se escolhido, isso pode significar uma mudança completa na vida do jovem jogador. Não é incomum que eles sejam levados para categorias de base de times internacionais com contratos com décadas de duração. Mas até esse processo está sendo transformado pela Inteligência Artificial.
Plataformas analisam vídeos de jovens atletas
Pelo menos três plataformas ajudam a conectar times com jovens jogadores. A CUJU é um aplicativo alemão que chegou no Brasil desde 2022. O país é o principal mercado, com mais de 150 mil downloads desde a criação. O funcionamento é simples: cada jovem atleta precisa fazer oito exercícios pré-determinados que ajudam a determinar a destreza dele com a bola. A partir das gravações dos exercícios, é criado um gráfico que mostra onde ele pode melhorar e quais seus pontos fortes. O app também dá uma nota para o usuário e cria um ranking. Quem alcança as posições mais altas, fica mais exposto para os olheiros.
Além do acesso aos vídeos dos atletas, a CUJU também realiza competições entre os usuários para levá-los a treinar em times estrangeiros. No último campeonato, realizado em junho de 2025, os dois vencedores (Vitor Teixeira, de 16 anos, e Marina Gil, de 15 anos) foram premiados com duas semanas de treinamento na Alemanha, com o time Hertha Berlin. Vitor, inclusive, joga atualmente no sub-17 do Red Bull Bragantino. Além disso, as jogadoras Judy Lucciola e Kelsy de Oliveira (conhecida como Marry), selecionadas através da plataforma, foram convocadas para a seleção feminina brasileira sub-15 em 2023. Marry foi convocada novamente, dessa vez para a seleção sub-17 em 2025.
Linksport usa IA para comparar “maçãs com maçãs”
A Linksport é outra plataforma que liga jovens atletas a possíveis posições em times grandes. Eles também entraram em atividade no Brasil em 2022, e possuem mais de 120 mil downloads, com cadastros vindo de mais de 800 cidades do país. O app é uma espécie de “Linkedin do futebol”, em que os olheiros podem ver perfis de diferentes atletas e convidá-los para a seletiva. A ideia do aplicativo não é que o atleta fique horas scrollando, e sim que gaste mais horas fora dele, treinando e participando de desafios para atrair “micro patrocínios”.
Atualmente, os atletas estão “visíveis” para olheiros do Brasil e do Japão. De acordo com a assessoria de imprensa, em uma segunda fase, os vídeos de jovens brasileiros estarão disponíveis para mais de 1500 olheiros de outros países.
Para garantir a equidade de chances, o app utiliza uma IA para analisar os vídeos dos 15 desafios individuais cumpridos pelos jogadores e agrupar os resultados de acordo com gênero, idade e outras características. É através desses desafios que os usuários podem ganhar micro patrocínios dentro do aplicativo e que podem ser trocados por equipamentos esportivos. Isso evita que um jogador tente se posicionar melhor ao subir apenas vídeos de jogadas espetaculares na plataforma e dá aos olheiros uma visão mais completa das habilidades dos atletas.
Proteção de dados
As plataformas possuem algumas maneiras de garantir que os dados dos jogadores não caiam em mãos erradas. O CUJU deixa os dados armazenados em um servidor alemão e segue todas as diretrizes do Regulamento Geral de Proteção de Dados da União Europeia e não são compartilhadas com terceiros sem a concordância do usuário. Já o Linksport possui uma política de cadastro mais rigorosa. Tanto que mais de 2000 perfis ainda não estão ativos pela falta de autorização dos pais do usuário. A plataforma também exige que olheiros, que terão acesso aos dados dos atletas, apresentem documentações profissionais para concluírem a criação do perfil. Esses cuidados são necessários para garantir que as chances de se profissionalizar cheguem a atletas de todo o país, sem que eles se exponham a riscos desnecessários.
Imagem: Quang Nguyen Vinh (Pexels)
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