Histórias de espionagem parecem coisa de filme, mas algumas envolvem situações bem mais próximas da realidade do que parecem. Na China, um executivo de uma empresa de comércio militar foi preso após uma investigação do Ministério da Segurança do Estado apontar que ele fornecia informações confidenciais de defesa a agências de inteligência de dois países estrangeiros. Identificado apenas pelo sobrenome Zhang, o funcionário teria recebido milhares de dólares ao longo do esquema. O caso foi divulgado pelo governo chinês na segunda-feira (31/6) e chamou atenção por envolver, simultaneamente, dois serviços de inteligência estrangeiros, algo considerado extremamente raro nos comunicados públicos do país.
Um pedido de tradução virou a porta de entrada para a espionagem
Segundo o Ministério da Segurança do Estado da China, Zhang já era considerado um funcionário de confiança da empresa onde trabalhava e tinha experiência internacional após passar anos estudando no exterior. Fluente em línguas estrangeiras, ele costumava lidar com negócios internacionais de uma companhia ligada ao comércio de armas.
O primeiro contato teria acontecido em uma recepção diplomática, quando um diplomata identificado pelo pseudônimo Lucas, do chamado País A, se aproximou de Zhang e elogiou suas habilidades linguísticas. Os dois trocaram contatos e, meses depois, Lucas fez um pedido que inicialmente parecia simples: traduzir algumas páginas de documentos técnicos em troca de centenas de dólares.
O trabalho, porém, teria sido apenas o começo. Conforme os pedidos aumentavam, também crescia o interesse por informações sobre importações militares chinesas e a divisão de funções entre empresas de comércio de armas. Zhang teria percebido que Lucas provavelmente trabalhava para uma agência de inteligência, mas decidiu continuar colaborando. De acordo com o ministério, a motivação era principalmente financeira e a crença de que não seria descoberto.
A partir daí, os pedidos teriam avançado para informações mais sensíveis. Zhang passou a fornecer relatos verbais e até contratos físicos. O caso tornou-se ainda mais problemático quando, durante uma viagem de negócios ao exterior, Zhang teria sido abordado por agentes de inteligência de um segundo país, identificado apenas como País B.
Dois países, dois métodos e um mesmo alvo
O caso de espionagem divulgado pelo governo chinês envolve um executivo acusado de fornecer informações confidenciais de defesa a serviços de inteligência de dois países
O recrutamento pelo segundo serviço teria seguido um caminho diferente. Zhang conheceu um funcionário da embaixada do País B, chamado pelo pseudônimo Mike, depois que ele o ajudou com um processo de visto que havia sido deliberadamente atrasado. Mais tarde, Mike apresentou o executivo à sua assistente, Sarah. Segundo o relato chinês, Sarah teria criado uma relação pessoal próxima com Zhang antes de revelar que era agente de inteligência. Depois disso, ela teria pedido que ele entregasse informações confidenciais sobre armamentos chineses.
Além do dinheiro, a agente teria oferecido uma espécie de garantia: caso Zhang fosse descoberto, o País B o ajudaria a escapar das consequências. A promessa teria convencido o executivo a fornecer documentos confidenciais. Essa atuação para dois serviços de inteligência estrangeiros ao mesmo tempo tornou o caso especialmente raro e chamou a atenção das autoridades chinesas. O Ministério da Segurança do Estado afirma que costuma divulgar casos de espionagem como forma de alertar a população, mas que situações envolvendo um cidadão chinês recrutado simultaneamente por diferentes agências estrangeiras são extremamente difíceis de acontecer.
A investigação acabou identificando os vínculos de Zhang com os dois países. Preso, ele confessou as acusações, e o caso continua sendo investigado pelas autoridades chinesas. O caso foi usado pelo ministério como um alerta sobre uma estratégia recorrente de recrutamento: começar com pedidos aparentemente inofensivos e, aos poucos, aumentar o nível de exigência até chegar a informações consideradas segredos de Estado.
Ver 0 Comentários