Henry Ford sobre o descanso no trabalho: “É preciso erradicar a ideia de que o tempo livre dos trabalhadores é tempo perdido”

Meses depois, ele implementou a semana de trabalho de cinco dias e 40 horas em toda a sua fábrica

Henry Ford
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Há pouco mais de um século, um homem subiu a um palco para falar de algo que ninguém esperava dele. Não era um líder operário nem um político. Era o dono de uma das maiores e mais produtivas fábricas do planeta. Seu nome era Henry Ford e, naquele dia, ele não subiu para falar de carros nem de linhas de montagem.

Como conta a BBC, Ford se apresentou como defensor de uma ideia que parecia descabida na boca de um dos empresários mais ricos e revolucionários dos EUA no início do século 20: o direito de seus operários a não trabalhar.

Em sua fala de 1926, Ford soltou uma frase que ainda hoje causa estranheza quando vem de um magnata: “é hora de erradicar a ideia de que o tempo livre dos trabalhadores é ‘tempo perdido’ ou um privilégio de classe”. Não era conversa para boi dormir. Como registra o The New York Times, meses depois daquele discurso, a semana de cinco dias passou a ser uma norma fixa em toda a sua fábrica, com 40 horas distribuídas em cinco jornadas.

Aquilo superava em muito o que a legislação internacional da época exigia. Em 1919, a recém-criada Organização Internacional do Trabalho havia estabelecido o limite de 48 horas semanais ao longo de seis dias. É o que estabelece a Convenção nº 1 da OIT, o primeiro padrão trabalhista internacional da história. Ford, sem que ninguém lhe exigisse isso, foi além daquela norma.

Os primeiros testes

A decisão de Ford não foi improvisada. Quatro anos antes, em 1922, em um artigo do The New York Times, seu filho Edsel Ford falou sobre o conceito de descanso no trabalho e seu valor para a linha de montagem. O filho de Henry Ford já estava à frente da empresa desde 1919 e contou ao jornal nova-iorquino sobre um teste-piloto que reduzia a semana para cinco dias em alguns departamentos de sua fábrica. “Todo homem precisa de mais de um dia por semana para descansar e se divertir”, declarou o filho do fundador ao jornal.

Edsel insistiu que a medida não afetava a rentabilidade da fábrica. Na verdade, a empresa mantinha o salário mínimo de 6 dólares por dia para os 50 mil homens afetados. E previa contratar mais 3 mil funcionários para manter a mesma produção em menos dias. A mensagem do sucessor apontava na mesma direção que Henry Ford defenderia em 1926 com os próprios resultados em mãos: menos horas de trabalho não equivalia a menos lucro para a empresa.

O segredo estava na linha de montagem

Para entender por que Ford podia pagar mais e exigir menos horas do que seus concorrentes, é preciso voltar um pouco mais no tempo. Em 1913, a linha de montagem chegou ao Model T. Como confirma uma pesquisa da Kellogg School of Management, a mudança no conceito de fabricação foi brutal. O tempo para fabricar um carro caiu de mais de 12 horas por unidade para pouco mais de 90 minutos.

Esse ganho de eficiência na produção de carros permitiu que Ford dobrasse, em 1914, o salário mínimo que seus funcionários recebiam, chegando a 5 dólares por dia. O valor escandalizou outros industriais. Ford entendia que a automação e o trabalho em linha haviam melhorado a rentabilidade da produção. E acreditava que parte dessa economia deveria voltar para o operário na forma de salário, mas também de tempo livre. “O trabalho é mecânico, mas as jornadas não são longas. A maior parte de sua vida ele tem para si mesmo”, declarou em um artigo do The New York Times de 1922.

No entanto, por trás do gesto aparentemente generoso de Ford também havia puro cálculo. No discurso de 1926, Ford reconheceu que o avanço das grandes fábricas já havia permitido a jornada de oito horas. Esses mesmos avanços, dizia, tornavam possível agora a semana de cinco dias.

O economista Robert Whaples apontou algo semelhante em sua pesquisa “A conquista da jornada de trabalho de oito horas (1909-1919)”. Antes da Segunda Guerra Mundial, as lutas operárias pela redução da jornada tinham mais peso do que as reivindicações por melhores salários. Ford, mais do que um filantropo, soube ler bem seu momento e compreendeu que um trabalhador com tempo livre também é um cliente.

Imagem | Wikimedia

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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