A anomalia histórica encontrada na Coreia choca os pesquisadores ao revelar o pesadelo dos sacrifícios humanos e expor a herança sombria da endogamia

Análise de DNA de 78 esqueletos encontrados em um complexo funerário confirmou que famílias inteiras eram sacrificadas ao lado da elite e revelou uma estrutura social hereditária conhecida apenas por registros históricos

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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Por séculos, documentos relataram que o antigo reino de Silla,  localizado na região sudeste da península coreana, realizava sacrifícios humanos durante os funerais da elite. Agora, uma pesquisa publicada na revista Science Advances trouxe a primeira confirmação genética de como essa prática acontecia. Ao analisar o DNA de 78 esqueletos encontrados no complexo funerário de Imdang-Joyeong, na atual Coreia do Sul, cientistas descobriram que famílias inteiras eram sacrificadas e identificaram indícios de algo parecido como uma "casta sacrificial" hereditária, com alguns grupos familiares destinadas aos sacrifícios por gerações consecutivas. O estudo também revelou evidências de casamentos entre parentes próximos e uma organização familiar diferente de outras sociedades antigas.

Análise de DNA confirma que famílias inteiras eram destinadas aos sacrifícios

Os sacrifícios humanos já eram mencionados em registros históricos do reino de Silla, que existiu durante o período dos Três Reinos da Coreia, entre aproximadamente 57 a.C. e 668 d.C. Segundo esses relatos, era comum que servos ou pessoas subordinadas fossem mortos para acompanhar membros da elite em seus sepultamentos, em um ritual conhecido como sunjang.

O que faltava era uma comprovação científica de como essa prática funcionava na sociedade, e eles encontraram. Pesquisadores analisaram geneticamente 78 indivíduos sepultados no complexo funerário de Imdang-Joyeong, construído entre os séculos IV e VI. Os resultados mostraram que muitos deles compartilhavam laços familiares próximos. A equipe identificou 11 pares de parentes de primeiro grau, como pais e filhos ou irmãos, e outros 23 pares de parentes de segundo grau, incluindo avós e netos ou tios e sobrinhos. Isso indica que pessoas da mesma família costumavam ser enterradas juntas.

Mas a descoberta mais surpreendente veio da análise dos indivíduos sacrificados. Em três sepultamentos, os pesquisadores encontraram pais e filhos mortos juntos como parte do ritual funerário. Para os pesquisadores, esse padrão reforça a ideia de que determinadas famílias eram destinadas ao sacrifício por gerações consecutivas, formando uma espécie de grupo hereditário ligado ao serviço da elite local.

O estudo também revelou uma sociedade marcada pela endogamia e por linhagens maternas

tumbas escavadas Complexo funerário de Imdang-Joyeong, na Coreia do Sul, onde pesquisadores analisaram 78 esqueletos e revelaram detalhes inéditos sobre os rituais funerários do antigo reino de Silla

Além de esclarecer como funcionavam os rituais de sacrifício, a pesquisa também trouxe novas informações sobre a estrutura social do antigo reino de Silla. Os cientistas reconstruíram 13 árvores genealógicas utilizando o DNA dos esqueletos, conectando indivíduos enterrados ao longo de mais de um século em diferentes áreas do complexo funerário. A análise mostrou que as relações familiares eram fortemente organizadas em torno das linhagens maternas, um padrão considerado incomum quando comparado a outras sociedades antigas da Coreia e também da Europa.

Outro resultado impressionou os pesquisadores: cinco indivíduos, entre membros da elite e pessoas sacrificadas, eram filhos de parentes próximos, incluindo um caso de primos de primeiro grau. A descoberta confirma que a endogamia fazia parte da sociedade local e não estava restrita a um único grupo social.

Para especialistas, a pesquisa representa um avanço para a arqueogenética na Ásia Oriental, a ciência que utiliza o DNA antigo para mapear o passado, revelando estruturas sociais e árvores genealógicas milenares. Isso porque a preservação de esqueletos do período dos Três Reinos é rara, e o sequenciamento completo do DNA permitiu revelar aspectos da organização familiar, da mobilidade social e das práticas funerárias que dificilmente seriam compreendidos apenas por meio da arqueologia tradicional.


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