Durante anos, os testes de mísseis da Coreia do Norte dominaram as manchetes sobre o programa nuclear do país. Mas, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o cenário mudou — e o risco pode ser ainda maior.
De acordo com o diretor-geral da agência, Rafael Grossi, o país fez avanços "muito sérios" na capacidade de produzir armas nucleares, incluindo a possível construção de uma nova instalação de enriquecimento de urânio.
O alerta foi feito durante um discurso em Seul, onde Grossi destacou que o foco agora não está apenas em testes militares, mas na produção contínua de material nuclear.
Atividade nuclear cresce em complexo estratégico
Segundo a AIEA, houve um aumento significativo das atividades no Complexo Nuclear de Yongbyon, considerado o principal centro do programa nuclear da Coreia do Norte.
De acordo com Rafael Grossi, imagens de satélite e análises técnicas indicam que o país voltou a operar o reator de 5 megawatts, uma instalação usada para produzir plutônio, material que pode ser empregado na fabricação de armas nucleares.
Além disso, a AIEA observou sinais de atividade na unidade de reprocessamento, onde o combustível nuclear usado pode ser tratado para extrair plutônio reutilizável. Esse processo é considerado uma das principais etapas para a produção de ogivas nucleares. Também foram identificados indícios de funcionamento de um reator de água leve, uma estrutura mais moderna que, embora possa ter uso civil, também pode contribuir para o avanço do programa nuclear.
Outro ponto que chamou a atenção dos especialistas foi a possível construção de novas instalações dentro do complexo, semelhantes às áreas usadas para enriquecimento de urânio. A expansão dessas estruturas sugere que a Coreia do Norte pode estar ampliando tanto a capacidade quanto a velocidade de produção de material nuclear.
O que é o enriquecimento de urânio — e por que ele preocupa
O enriquecimento de urânio é um processo que aumenta a concentração do isótopo urânio-235, necessário para a produção de energia nuclear — e também para armas nucleares.
O urânio natural contém cerca de 0,7% de urânio-235. Para uso em usinas nucleares, essa porcentagem precisa ser elevada para cerca de 3% a 5%. Já para armas nucleares, o nível necessário é muito mais alto — normalmente acima de 90%.
É justamente essa etapa que preocupa a comunidade internacional. Uma vez que um país domina o processo de enriquecimento, torna-se muito mais fácil produzir material para armas nucleares em menos tempo.
Especialistas consideram o enriquecimento de urânio uma alternativa mais eficiente do que o reprocessamento de plutônio, outro caminho usado na fabricação de armas nucleares.
Programa nuclear norte-coreano entra em nova fase
Segundo a AIEA, imagens e análises indicam a construção de uma nova instalação semelhante às salas de enriquecimento já existentes em Yongbyon.
Para a AIEA, a combinação das novas atividades representa um avanço importante no programa nuclear norte-coreano. Segundo Rafael Grossi, todos os elementos indicam um crescimento significativo na capacidade do país de produzir armas nucleares, elevando a preocupação da comunidade internacional.
Programa nuclear norte-coreano entra em nova fase
Embora seja difícil obter números exatos, especialistas estimam que o país possua algumas dezenas de ogivas nucleares. O aumento da atividade nuclear pode elevar esse número, ampliando também a capacidade estratégica do país.
O avanço preocupa a comunidade internacional, já que pode aumentar o risco de escalada militar na região. O programa nuclear da Coreia do Norte tem sido alvo de sanções internacionais há anos. Mesmo assim, o país continuou desenvolvendo suas capacidades militares.
A nova expansão ocorre em meio a tensões crescentes com a Coreia do Sul, Estados Unidos e Japão. Os países têm reforçado a vigilância e a cooperação militar na região.
Foto de capa: Reuters
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