Eles fugiram para as montanhas para escapar de suas dívidas; 4 anos e muitas ovelhas depois, eles agora são um fenômeno rural

Casal documenta aprendizado em canal na internet

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Bárbara Castro

Redatora

“Evidentemente, era uma ideia que sempre esteve na minha cabeça e que eu compartilhava com pouquíssimas pessoas. Uma delas era meu melhor amigo do colégio, Jose, com quem descobri que dividia o mesmo sonho. Hoje ele é meu marido e estamos juntos nessa aventura. Quando terminei a faculdade, eu sabia que queria morar no campo o quanto antes, mas era difícil pagar aluguel, fazer mestrado, bancar deslocamentos, carro... Era muito gasto e pouca renda, então era inviável. Mas surgiu uma oportunidade com a qual não contávamos: a bisavó do Jose precisou se mudar para a cidade por problemas de saúde e deixou sua casa de campo vazia”.

Assim começa a história de Sandra Martínez e José Piñeiro, advogada e marinheiro, um casal que deixou a cidade há mais de três anos para se instalar na freguesia de Naraío (em San Sadurniño, na Corunha). Hoje, eles vivem com suas ovelhas, água da chuva e um canal onde mostram como é aprender a lidar com a lida rural do zero. Mais do que um plano meticulosamente traçado, o que surgiu foi a chance de tentar. E, embora contem que a trajetória não tem sido simples e que o custo pessoal às vezes é alto, eles encaram a escolha com muito orgulho.

Do sufoco do aluguel à casa vazia

Sandra conta que o plano de morar no campo rondava seus pensamentos havia anos, mas ficava restrito a poucas conversas — entre elas, com o companheiro, que conheceu ainda no ensino médio em Ferrol. Ao concluir a faculdade de Direito, o objetivo era rumar para a zona rural o quanto antes, mas as contas não fechavam: aluguel, pós-graduação, transporte, manutenção do carro... "muito gasto para pouca renda, simplesmente inviável". A reviravolta veio de onde menos esperavam: quando a bisavó dele precisou ir para a cidade para cuidar da saúde, a casa da família em Naraío ficou desocupada. Eles se mudaram em dois dias. Apenas uma semana depois, veio o confinamento imposto pela pandemia de covid-19 em 2020, e o casal acabou ilhado ali, sem poder sair. "Foi paixão à primeira vista", resume Sandra.

Esse movimento não é um caso isolado. Segundo um estudo do primeiro semestre de 2026, seis em cada dez pessoas à procura de moradia na Espanha planejam se mudar para o interior ou já têm esse plano em andamento, motivadas sobretudo pelo alto custo de vida urbano. Os mais jovens lideram essa tendência: 23% da faixa entre 18 e 24 anos já planejou a mudança, número que sobe para 38% entre 25 e 34 anos. O Observatório de Emancipação do Conselho da Juventude da Espanha corrobora o cenário: apenas 14,5% dos jovens espanhóis de 16 a 29 anos conseguiram sair da casa dos pais, e a idade média de emancipação gira em torno de 30,2 anos — bem acima dos 26 anos da média da União Europeia. Para completar, dados do INE apontam que 44,3% dos adultos entre 26 e 34 anos ainda moravam com a família em 2025.

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Foi durante o isolamento que começou a nascer o acervo de vídeos que hoje atrai uma comunidade fiel na internet. No início, a intenção era apenas manter contato com a família e colegas da faculdade distantes, mostrando suas primeiras tentativas de cultivar a terra e criar animais. 

Em entrevista à COPE, Sandra revelou que muitos amigos não entendiam a guinada repentina. A presença nas redes sociais foi uma consequência, e não o ponto de partida; já a decisão de transformar o hobby em plano de vida definitivo veio após uma longa conversa de horas, quando os dois perceberam que haviam encontrado sua verdadeira vocação.

De uma plantação de eucaliptos ao projeto Nosa Granxa

O projeto foi batizado de Nosa Granxa ("Nossa Fazenda", em galego), e o primeiro grande desafio não foi lidar com energia elétrica ou infraestrutura básica, mas sim recuperar a terra: converter uma monocultura de eucaliptos em uma floresta nativa. Na Galícia, o eucalipto já cobre mais de 17% do território, segundo entidades florestais como a Cousa de Raíces. Como a alteração da classificação florestal exige respeitar faixas de proteção que impactam os terrenos vizinhos, a iniciativa chegou a gerar atritos com produtores locais preocupados com suas plantações. 

"Felizmente superamos essa fase e hoje nos damos muito bem com todos", esclarece Sandra. Atualmente, o casal administra uma propriedade de cinco hectares que pretendem reflorestar inteiramente com vegetação nativa.

Sem nenhuma bagagem prévia na vida rural, a dupla precisou aprender todo o ofício na prática. O maior manual de instruções não veio da internet nem dos livros técnicos, mas dos moradores mais antigos do vilarejo. Destaque para dona Josefina, uma vizinha de 80 anos descrita por Sandra como alguém com "espírito de 30", cujo conhecimento tradicional inspirou a criação de uma fazenda-escola virtual — iniciativa que rendeu ao casal o prêmio Xuventude Crea, concedido pelo governo regional da Galícia. No quesito sustentabilidade, investiram no reaproveitamento de resíduos orgânicos e compostagem; o próximo passo, que ainda aguarda liberação de licenças, é a instalação de cisternas subterrâneas para captar água da chuva e consolidar a autossuficiência hídrica.

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Ao ser questionada se essa transição transformou sua visão de mundo, Sandra evita romantizações exageradas e rejeita a ideia de ter adquirido uma consciência ecológica superior. "Toda pessoa tem a obrigação de cuidar do ambiente ao seu redor, more ou não no campo", pondera. "Cada um faz o que está ao seu alcance na própria rotina". 

O que ela admite, no entanto, é que encarar de frente os dilemas da terra — como a qualidade do solo, a escassez de água e a burocracia ambiental — trouxe uma nova dimensão à realidade: 

"Pudemos vivenciar esses desafios na pele, e isso molda prioridades que antes a gente até compreendia na teoria, mas não com tamanha profundidade".

Educação longe da sala de aula

Na Espanha, a matrícula escolar tradicional é obrigatória para crianças e adolescentes dos 6 aos 16 anos pela legislação educacional vigente (LOMLOE). Embora a Constituição espanhola assegure o direito dos pais de escolher a formação de seus filhos, a educação domiciliar não possui um marco regulatório explícito: o homeschooling não é expressamente proibido, mas também não conta com respaldo formal na lei. Em termos práticos, trata-se de um limbo jurídico, e os governos regionais podem abrir investigações por evasão escolar caso julguem que o desenvolvimento da criança não está sendo devidamente acompanhado.

Diante de uma trajetória assim, é inevitável traçar paralelos com produções como Capitão Fantástico (2016), filme no qual o personagem de Viggo Mortensen cria seus filhos isolado em florestas remotas dos Estados Unidos, sem contato com a civilização. Contudo, Sandra faz questão de desmistificar a ideia de isolamento social quando o assunto é o desenvolvimento dos filhos: 

"Muita gente nos pergunta sobre isso, mas não vivemos isolados da sociedade". Ela lembra que há escolas, creches e atividades extracurriculares a distâncias acessíveis: "Hoje em dia o carro encurta qualquer trajeto; não é mais como no passado".

 Sandra se define como uma pessoa reservada e que aprecia o silêncio, razão pela qual a tranquilidade do campo se encaixa tão bem em seu estilo de vida. Ainda assim, ela reforça que solidão não existe por lá: Narahío funciona como uma autêntica comunidade à moda antiga. 

"Quando alguém vai semear, todos ajudam; se a vaca de um vizinho entra em trabalho de parto, todos correm para apoiar; se alguém precisa de uma obra, todos põem a mão na massa", relata. Esse senso de cooperação comunitária, que ela afirma jamais ter experimentado nos anos em que morou na cidade, transformou sua forma de conviver — e é algo que ela não trocaria por nada.

Sonho viável ou privilégio de poucos?

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Em Jaén, outro casal, curiosamente com os mesmos nomes — Sandra e José — trocou Girona pelo campo após herdar uma propriedade rural da família. Hoje, eles criam quatro filhos fora do sistema escolar tradicional, também apostando na educação domiciliar. O consumo elétrico deles é mantido por duas baterias de lítio de 4,4 kWh e um conjunto de painéis solares que já precisou ser reconstruído três vezes após vendavais severos, além de oito reservatórios para captação de água da chuva. Eles dormem em futons de algodão e lã e utilizam luz vermelha por padrão à noite para preservar o ciclo circadiano. Essa rotina virou pauta em diversos veículos de comunicação e canais do YouTube, consolidando a família como referência de transição bem-sucedida para o campo.

Em Corterrangel (Huelva), os cientistas Ainara e Roger fizeram a população local crescer quase 20% ao trocar Sevilha pelo povoado para criar a filha Irati cercada pela natureza — conseguindo quitar o imóvel à vista com as economias guardadas, algo impossível nos grandes centros urbanos. Na própria Galícia, Lucía deixou Madri aos 27 anos para restaurar, por meio da permacultura, uma residência centenária em uma vila de apenas nove habitantes, certa de que tais regiões merecem ser repovoadas. Ainda mais radical foi a decisão de Ary, que vendeu apartamento e comércio aos 32 anos para viver em uma van adaptada de meros cinco metros quadrados, cortando completamente contas de água e luz.

Esse modelo de vida tem atraído até mesmo investimentos internacionais. Um casal holandês comprou Bárcena de Bureba, uma vila inteira em Burgos deserta havia mais de quatro décadas, com o objetivo de erguer uma ecovila autossustentável. Já um grupo de amigos juntou 140 mil euros (cerca de R$ 850 mil) para adquirir um vilarejo abandonado há 50 anos próximo a Lugo, planejando restaurar cada imóvel e envelhecer juntos. Do outro lado do mapa, na América do Sul, Rosa e Sixto já sustentam suas cinco filhas há trinta anos às margens do rio Napo, no Equador, colhendo mandioca, banana e pimenta — um lembrete vívido de que a autossuficiência longe dos centros urbanos já funcionava muito antes de as redes sociais existirem para narrá-la.

No fim das contas, deixar os grandes centros urbanos não significa escapar do sistema, mas apenas redefinir as prioridades e dependências. Sandra afasta qualquer visão ingênua da vida no campo: recentemente, precisou se afastar da internet porque a rotina vinha sendo extenuante. A lida rural também envolve boletos, exigências burocráticas, desgaste físico contínuo e perdas dolorosas, sejam de animais ou de pessoas próximas. Viver em Narahío está longe de ser um conto de fadas estético do Instagram; trata-se de um projeto diário construído com tentativa e erro, trabalho pesado e, em muitas fases, pura resiliência.

Matéria traduzida de Xataka*

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