Em resumo. Após os ataques de Israel em Doha durante o ano passado, Paquistão e Arábia Saudita assinaram um acordo de defesa mútua. Dentro do acordo, há bilhões sobre a mesa tanto para se armarem quanto para cumprir certos compromissos. E, dentro dessa estratégia, a Reuters aponta para um acordo histórico entre os dois países.
O caça JF-17 é fruto de uma parceria de desenvolvimento entre China e Paquistão. O programa foi lançado em 1999 e cada país contribuiu com 50% para sua realização. Ele vem demonstrando há tempos sua versatilidade em combate e, nos últimos anos, diferentes países adquiriram uma frota desses caças. Mianmar foi um dos primeiros compradores estrangeiros, seguido por Nigéria e Azerbaijão. Nas últimas semanas, Bangladesh também se mostrou interessado em renovar sua frota envelhecida, e a carteira de clientes continua crescendo.
No relatório da Reuters, e como também aponta o South China Morning Post, a Arábia Saudita seria o próximo país a adquirir a versão mais recente do JF-17. As fontes mencionam um acordo entre 2 e 4 bilhões de dólares e indicam que outras nações estariam interessadas, como Iraque, Líbia e Sri Lanka. O grande trunfo é o preço: o JF-17 custa um quarto do que o F-35 estadunidense. Além disso, a produção é dividida entre a China, que fabrica parte dos componentes, e o Paquistão, responsável pelos demais.
Esse preço é a alavanca para que países do Oriente Médio e da África estejam modernizando suas frotas de caças, mas é preciso ter em mente que os JF-17 não competem na mesma liga dos F-35. De fato, não jogam nem o mesmo esporte. Enquanto o caça sino-paquistanês é de quarta geração, o estadunidense é de quinta, com desempenho superior e uma assinatura menor no ar, o que o torna mais eficiente em operações furtivas. Ele segue uma filosofia de vencer combates antes que o inimigo sequer perceba que eles começaram.
O dom da oportunidade
No entanto, apesar da inferioridade tecnológica, o caça chinês tem a vantagem do armamento (mais capacidade de carga para levar mais armas, comprometendo sua assinatura nos radares) e, sobretudo, do preço e dos custos. Os EUA estão enfrentando atrasos na entrega de seus F-35 e, além disso, sua manutenção é cara. O JF-17 é mais fácil de fabricar e de manter, o que representa uma enorme vantagem para os países.
A estimativa é que, pelo preço de dois F-35, seja possível comprar cerca de dez JF-17, o que representa uma oportunidade enorme para países africanos e do Oriente Médio que queiram renovar sua frota com equipamentos atuais. É esse “dom da oportunidade” da China que estamos vendo em outros setores, como o dos carros elétricos.
Essa batalha para ser o fornecedor de armamentos não se joga apenas nos produtos finais e entregues. Ela começa muito antes, e a China tem algo a dizer nesses atrasos comerciais do F-35. A complexidade do F-35 faz com que sua fabricação também seja complexa, mas é preciso somar a isso os movimentos de outra guerra: a comercial.
Um J-20 com mísseis PL-15 dentro do compartimento de armas
Os componentes-chave de um caça dependem de materiais derivados das terras raras, e a China é quem tem a faca e o queijo na mão nesse campo. Ela domina a extração e a produção de metais e elementos a partir de terras raras e, do mesmo modo que os EUA apertaram o cerco proibindo que a China compre GPUs da Nvidia e máquinas da ASML para fabricar chips avançados, a China acionou a alavanca para regular a exportação de ímãs e metais de terras raras para empresas ligadas ao complexo militar dos Estados Unidos.
Tensões
São esses fatores que estão transformando um avião menos avançado que o F-35 em uma opção atraente (e prática) para os tempos de tensão em que vivemos. Paquistão e Índia estão envolvidos em uma espiral de tensões geopolíticas. A Índia conta com aviões MiG russos e Rafale franceses, e agora os JF-17 dispõem de mísseis PL-15 de fabricação chinesa.
São os mísseis ar-ar mais avançados da China, com um alcance efetivo de cerca de 150 km e sistemas capazes de rastrear alvos com facilidade. E, embora tenham sido desenvolvidos para o caça J-20 de quinta geração (um dos estandartes aéreos da China), eles também podem ser instalados nos JF-17. De fato, o JF-17 atual é o Block III, considerado de geração 4,5 — na filosofia do veterano F-16.
Se o conflito escalar, já há quem aponte que uma guerra entre Índia e Paquistão seria um teste das armas chinesas contra as ocidentais.
Isso leva à pergunta: o que a Europa está fazendo enquanto os outros se rearmam? O velho continente iniciou o caminho da soberania em vários campos, sendo o espacial e o armamentístico dois grandes ralos de dinheiro para os próximos anos. No que diz respeito a caças, há dois polos. De um lado, o FCAS, com apoio de França, Alemanha e Espanha. São três pesos-pesados dessa indústria e têm o objetivo de chegar a 2040 com um sistema capaz de substituir os caças atuais.
Do outro lado, Itália e Reino Unido (outras duas potências com empresas como a Leonardo), além do Japão, apoiam o programa GCAP: um avião de apoio que coordene formações de drones e outros caças. Mas, antes de tudo isso, os países precisam entrar em acordo — e isso não é algo que pareça viável.
Imagens | Anna Zvereva, emperornie
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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