A Sony anunciou recentemente uma das piores notícias para a indústria de videogames. A empresa deixará de fabricar discos físicos para todos os novos jogos do PlayStation a partir de janeiro de 2028. A justificativa da empresa é que se trata de "uma evolução natural em direção às preferências atuais do consumidor", em que a demanda por formatos digitais prevaleceu sobre a mídia física.
A partir dessa data, qualquer título que você queira comprar estará disponível apenas na nuvem da PlayStation Store ou em versões digitais de lojas parceiras. A questão agora é o que essa mudança realmente significa para quem paga por um jogo.
Por que isso importa?
Quando você compra um disco, aquele objeto é seu. Você pode emprestá-lo, revendê-lo, guardá-lo em uma prateleira por anos, e ele continuará funcionando mesmo se a empresa responsável falir. Há nuances nisso, já que cada empresa gerencia suas licenças de conteúdo de forma diferente, mas o importante é que a mídia física tem o valor agregado de permitir que você possua o conteúdo na maioria dos casos.
Ao comprar um jogo digital, no entanto, você não adquire o software em si, mas sim uma licença para usá-lo, sujeita a um contrato que quase ninguém lê. A Steam deixa isso claro em seu contrato de assinatura, já que o conteúdo é licenciado, não vendido. Essa distinção legal, muitas vezes escondida nas letras miúdas que muitos de nós ignoramos, torna-se a regra geral do ecossistema PlayStation assim que o disco desaparece por completo.
E sim, podemos afirmar que hoje, mesmo comprando em formato físico, não há garantia de que todo o conteúdo esteja realmente no disco. Além disso, em termos de preservação, embora um disco possa durar muitos anos se bem cuidado, não é uma mídia eterna e também pode se deteriorar com o tempo. O que está em jogo aqui é o controle total da empresa sobre o que você compra, e isso, mesmo que minimamente, deveria nos importar.
Práticas anticonsumidor
As empresas têm mil razões para abandonar os formatos físicos e, nos últimos anos, vimos exemplos de práticas anticonsumidor que vão além do simples abandono desse formato. Em 2024, a Ubisoft desligou os servidores de The Crew, um jogo de corrida que exigia uma conexão constante com a internet, mesmo no modo para um jogador.
O jogo parou de funcionar completamente para todos os seus proprietários, sem nenhuma atualização disponível para permitir o jogo offline. Isso deu origem ao movimento Stop Killing Games, que reuniu mais de 1,3 milhão de assinaturas verificadas para solicitar à União Europeia que exigisse que as editoras deixassem seus títulos jogáveis ao encerrar o suporte.
Este mês, a Comissão Europeia rejeitou a imposição de tal obrigação legal, argumentando que os direitos de propriedade intelectual dos estúdios se sobrepõem ao acesso contínuo do jogador, embora tenha se comprometido a promover um código de conduta voluntário até o final do ano.
As letras miúdas agora são a norma
Esse mesmo debate forçou as próprias distribuidoras a serem mais honestas sobre o que vendem. Nos Estados Unidos, uma lei da Califórnia (AB 2426) proíbe lojas digitais de usar palavras como "comprar" se não oferecerem a propriedade real do produto. Como resultado, a Steam começou a exibir um aviso durante o processo de finalização da compra esclarecendo que apenas uma licença para o jogo está sendo adquirida, e não a propriedade.
A PlayStation Store não está sujeita a essa lei fora da Califórnia, mas o princípio é idêntico.
Frente jurídica
Além da batalha na Europa, a Sony enfrenta uma ação coletiva no Reino Unido avaliada em aproximadamente US$ 2,7 bilhões (cerca de 14 bilhões) por suposto abuso de sua posição dominante no mercado de vendas de jogos digitais. Enquanto isso, a Ubisoft já está sendo processada na França e na Califórnia pelo encerramento de The Crew, acusada de induzir os consumidores a acreditarem que estavam adquirindo o jogo permanentemente quando, na prática, o acesso era temporário.
Esses são processos distintos, mas todos apontam para a mesma questão: qual a proteção legal de alguém que pagou 70, 80 ou 90 euros por algo que pode desaparecer ao bel-prazer de uma empresa?
Impotência
Não existe uma solução mágica, na verdade, mas se você valoriza a preservação, existem casos como o GOG, que vende instaladores sem DRM que podem ser baixados e salvos permanentemente — o mais próximo que se pode chegar hoje da verdadeira propriedade de um videogame. Mas, é claro, isso não resolve o problema para quem compra jogos físicos no ecossistema PlayStation.
Podemos estar caminhando para o abandono dos formatos físicos. Mas não dessa forma, ou pelo menos não tendo que abrir mão da nossa propriedade para uma empresa. E o problema é que fomos convencidos por anos de que a conveniência e o conforto dos formatos digitais dependiam estritamente do controle total de uma empresa sobre o que compramos.
Em relação ao PlayStation, os jogos já lançados em disco antes de 2028 continuarão existindo nesse formato, então aqueles que valorizam esse formato ainda têm um ano e meio para continuar comprando. E vale lembrar que mesmo o rótulo "físico" não garante mais nada. O exemplo mais claro foi há alguns dias com GTA VI, cuja edição física incluirá apenas um código de download dentro da caixa, sem nenhum disco. Estas são medidas anticonsumidor.
Imagem da capa | Mahtab Mashuq Tonmoy
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