Será que a barreira marítima de € 6 bilhões em Veneza pode ser replicada na Espanha?

Na baía de Cádis, mais de 90 mil pessoas vivem abaixo do nível do mar, que avança três metros por ano

Baía de Cádis
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Nos dois primeiros meses de 2026, Veneza precisou erguer sua grande barreira móvel 30 vezes. Nos últimos cinco anos, fez isso outras 108 vezes no total. Ninguém pode dizer que a obra de € 6 bilhões, destinada a salvar a lagoa, não tenha sido necessária; o que se pode afirmar é que ela já precisa ser acionada com tanta frequência que ameaça sufocar justamente aquilo que protege.

A 2 mil quilômetros dali, na baía de Cádis, na Espanha, o mar está engolindo a maior zona úmida salina sob influência de marés do país. E a ideia da grande barreira começa a parecer atraente. Será que a salvação é copiar Veneza?

O mar avança sobre a baía há décadas. Talvez a única mudança dos últimos anos seja que salineiros, aquicultores, cientistas e ambientalistas se juntaram para pedir algo em comum: a coordenação entre as administrações competentes. É a única forma de evitar que boa parte da zona úmida salina morra.

Essa zona úmida está estruturada em torno das chamadas vueltas de afuera: diques flexíveis que contêm as marés altas e as tempestades. Não se tratam de estruturas naturais, mas do produto de séculos de trabalho humano. Enquanto há quem as mantenha, elas resistem, domam o mar e ajudam a controlar as tempestades. O problema é que já quase não há quem faça essa manutenção. Hoje, cerca de 80% das salinas estão abandonadas: das 160 salinas artesanais que existiam nos anos 1970, restam apenas quatro.

Ou seja, o que está acontecendo na baía de Cádis é um desastre rotulado como “natural”, mas cuja raiz é socioeconômica.

O impacto

O resultado é claro. Em áreas como o sul de Puerto Real, o mar avança cerca de 3 metros por ano, segundo cálculos da Universidade de Cádis. E já está a pouco mais de 200 metros das primeiras casas.

A poucos quilômetros dali vivem 94 mil habitantes — os moradores de San Fernando — abaixo do nível do mar. Esse parque natural protegido é sua principal linha de defesa. Se as estimativas da Alianza Bahía Azul estiverem corretas e o mar subir entre 55 e 70 centímetros, muitas pessoas sofrerão as consequências. 

É por isso que se começou a falar seriamente sobre o muro. Mas isso seria um erro. Até agora, ninguém pediu um MOSE veneziano e, na verdade, o “concreto” mencionado pela Alianza Bahía Azul é algo muito diferente e muito mais cirúrgico. A proposta central é voltar aos muros permeáveis à maré: usar toda a tecnologia moderna para tentar resgatar a engenharia tradicional. Em outras palavras, manter vivo um ecossistema extremamente complexo.

E esse é o cerne da questão: a barreira de Veneza poderia proteger as áreas mais novas de San Fernando quando chegasse o momento, mas não conseguiria manter viva a baía.

Resta decidir se a Espanha quer investir agora em tal projeto, quando ainda é barato (mas talvez ineficaz), ou investir depois, quando será caro, mas o perigo estará incontestável.

Imagem | Alain Rouiller (Flickr)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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