A decisão da Sony de encerrar a produção de jogos físicos para PlayStation a partir de 2028 reacendeu um debate antigo na indústria: como preservar videogames para as próximas décadas? Para Frank Cifaldi, fundador da Video Game History Foundation (VGHF), a resposta atual é desconfortável, mas direta: a pirataria continua sendo o único método realmente capaz de garantir a preservação dos jogos.
A discussão ganhou força após Chloe Adams publicar nas redes sociais que "a pirataria é a única forma de preservação de mídia que existe nos games atualmente", acrescentando que, goste-se ou não dessa realidade, nenhuma outra instituição conseguirá manter esses títulos vivos daqui a 25 ou 50 anos.
A pirataria é a única forma de preservação de mídia existente para jogos atualmente; você pode até considerá-la moralmente condenável, mas, na prática, não há nenhuma outra instituição que manterá os jogos vivos daqui a 25 ou 50 anos.
Cifaldi respondeu concordando integralmente com a afirmação. Segundo ele, a Video Game History Foundation passou anos tentando construir uma alternativa legal em parceria com representantes da indústria, mas não encontrou abertura.
Como diretor de uma instituição histórica de preservação de videogames e alguém que dedicou toda a vida adulta a essa causa, isso é verdade. Tentamos trabalhar com a associação comercial da indústria para encontrar um caminho legal, mas eles se recusam a oferecer uma alternativa significativa.
O problema vai muito além dos discos físicos
Apesar da repercussão causada pelo fim das mídias físicas do PlayStation, Cifaldi argumenta que esse não é o maior desafio para a preservação dos jogos. Segundo ele, a maior parte dos títulos lançados nas últimas duas décadas já nasceu em formato digital ou depende de atualizações online para funcionar corretamente.
Na visão da Video Game History Foundation, museus e arquivos já trabalham há algum tempo considerando que simplesmente guardar um disco não será suficiente para preservar um jogo moderno.
O principal problema, segundo a organização, é que plataformas digitais continuam sendo encerradas e conteúdos desaparecem sem que exista um mecanismo legal que permita sua preservação por instituições culturais.
ESA é apontada como principal obstáculo (nos EUA)
Na declaração divulgada pela Video Game History Foundation, Cifaldi responsabiliza diretamente a Entertainment Software Association (ESA), entidade que representa grandes editoras da indústria.
Segundo ele, a organização se opôs, em diferentes ocasiões, a mudanças na legislação de direitos autorais que permitiriam que museus, bibliotecas e arquivos mantivessem versões jogáveis de títulos abandonados exclusivamente para pesquisa e preservação histórica.
O diretor afirma que, se as empresas pretendem abandonar mídias físicas e fechar lojas digitais antigas, também deveriam criar mecanismos legais para que instituições culturais possam preservar conteúdos digitais e disponibilizá-los para fins de pesquisa no futuro.
Encerramento das lojas amplia preocupação
A preocupação aumentou porque o anúncio sobre o futuro exclusivamente digital do PlayStation veio acompanhado da confirmação de que diversas lojas digitais do PlayStation 3 e do PlayStation Vita serão encerradas gradualmente em diferentes regiões.
Como esses consoles não possuem ampla compatibilidade com gerações mais recentes, milhares de jogos podem deixar de estar oficialmente disponíveis para compra.
Segundo dados do repositório não oficial NoPayStation, parte significativa dessas bibliotecas sequer foi totalmente preservada até hoje, aumentando o receio de que diversos títulos desapareçam definitivamente.
Na avaliação da Video Game History Foundation, enquanto editoras e associações do setor continuarem impedindo arquivos e museus de preservar jogos oficialmente, cópias não autorizadas continuarão sendo, na prática, o principal meio de impedir que parte da história dos videogames desapareça com o tempo.
Ver 0 Comentários